sexta-feira, 23 de setembro de 2011

TERCEIRA PARTE
BREVES NOÇÕES DE HISTÓRIA ECLESIÁSTICA
 As perseguições e os mártires
121. A Fé cristã teria de passar por duríssimas provas para que se visse manifestamente que vinha de Deus e que só Deus a sustentava. Nos três primeiros séculos de sua existência, ou seja, durante trezentos anos, muitas e terríveisperseguições se desencadearam contra os discípulos de Cristo, por ordem dos Imperadores romanos.
Não era contínua a guerra suscitada contra os cristãos, mas após curtos intervalos recrudescia, e então eram convocados para que dessem a razão de sua Fé. Eram obrigados a oferecer incenso aos ídolos, e se se negavam a isso eram sujeitos a toda espécie de infâmias, penas e tormentos que a malícia humana podia inventar, até a própria morte.

122. Eles, entretanto, não davam motivo de queixa a seus inimigos. Reuniam-se comumente para suas devoções e para assistir ao Santo Sacrifício em lugares subterrâneos, escuros e solitários que ainda subsistem em Roma e em outras partes, chamados catacumbas ou cemitérios.
Mas nem assim evitavam os perigos de morte. Inumerável multidão deles deutestemunho com o derramamento de seu sangue, de sua fé em Jesus Cristo, por cuja confirmação tinham morrido os Apóstolos e seus seguidores. Por isto são chamadosmártires, que quer dizer testemunhas. A Igreja reconhecia essas preciosas vítimas da Fé, recolhia seus corpos, dava-lhes honrosa sepultura em lugares santos e admitia-os à honra dos altares.

Constantino e a paz da Igreja
123. A Igreja não gozou de sólida paz até o Imperador Constantino, o qual _ vencedor de seus inimigos, favorecido e alentado por uma visão do céu _ publicou éditos dando a todos a liberdade de abraçar a Religião Cristã. Assim, os cristãos voltavam à posse dos bens que lhes haviam sido confiscados; ninguém os podia inquietar em razão de sua Fé; não deviam dali por diante ser excluídos dos cargos e postos do Estado; podiam erguer igrejas; e o próprio Imperador custeou às vezes a construção delas. 
Os confessores da Fé que estavam nos cárceres saíram livres, os cristãos começaram a celebrar suas reuniões com público esplendor, e os próprios pagãos sentiam-se atraídos a glorificar o verdadeiro Deus.

124. Constantino, vencido seu derradeiro competidor, ficou senhor do mundo romano, e viu-se a cruz de Cristo ondear resplandecente nas bandeiras do Império.
Mais tarde ele dividiu o Império em duas partes, oriental ocidental, fazendo deBizâncio, sobre o Bósforo, a sede da primeira, sua nova Capital, que embelezou e chamou de Constantinopla (ano 330 da era cristã). Esta metrópole veio a ser uma nova Roma, pela autoridade imperial que ali residia.
Então o espírito de orgulho e de novidades apoderou-se de alguns eclesiásticos ali constituídos em alta dignidade, os quais ambicionavam a primazia sobre o Papa e sobre toda a Igreja de Cristo. Daí surgiram gravíssimos conflitos durante muitos séculos, e finalmente o desastroso Cisma, com que o Oriente se separou do Ocidente (século IX), subtraindo-se em grande parte da divina autoridade do Pontífice Romano, que é o sucessor de São Pedro, Vigário de Nosso Senhor Jesus Cristo.

As heresias e os Concílios
125. Quando acabava de sair vitoriosa da guerra exterior do paganismo e de vencer a prova das ferozes perseguições, a Igreja de Cristo, assaltada por inimigos interiores, entrava em guerra intestina, muito mais terrível. Guerra prolongada e dolorosa, que, desenvolvida e instigada por maus cristãos, filhos degenerados, não chegou ainda seu término; mas da qual a Igreja sairá triunfadora, conforme a palavra infalível de seu divino Fundador a Seu primeiro Vigário na terra, o Apóstolo São Pedro: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra Ela” (S. Mateus 26, 18).

126. Já nos tempos apostólicos, tinha havido homens perversos que, por interesse e ambição, turvavam e corrompiam no povo a pureza da Fé com abomináveis erros. Os Apóstolos a eles se opuseram com a pregação, com escritos e com as infalíveis sentenças do primeiro Concílio que celebraram em Jerusalém.

127. Desde então até nossos dias, não cessou o espírito das trevas seus venenosos ataques contra a Igreja e as verdades divinas de que Ela é depositária infalível. Suscitando constantemente novas heresias, tem atentado sucessivamente contra todos os dogmas da Religião Cristã.

128. Entre outras, ficaram tristemente famosas as heresias de Sabélio, que impugnou o dogma da Santíssima Trindade; Manés, que negou a Unidade de Deus e admitiu no homem duas almas; Ário, que não quis reconhecer a divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo; Nestório, que recusou à Santíssima Virgem a excelsa dignidade de Mãe de Deus, e que distinguia em Jesus Cristo duas pessoas; Êutiques, que não admitia em Jesus Cristo senão uma natureza; Macedônio, que combateu a divindade do Espírito Santo; Pelágio, que atacou o dogma do pecado original e da necessidade da graça; os Iconoclastas, que rejeitavam o culto das Sagradas Imagens e das Relíquias dos Santos; Berengário, que se opôs à presença real de Nosso Senhor Jesus Cristo no Santíssimo Sacramento; João Huss, que negou o primado de São Pedro e do Romano Pontífice; e, finalmente, a grande heresia do Protestantismo (século XVI), forjada e propagada principalmente por Lutero e Calvino.
Esses inovadores _ rejeitando a Tradição divina, reduzindo toda Revelação à Sagrada Escritura, e subtraindo a mesma Sagrada Escritura ao legítimo magistério da Igreja, para entregá-la insensatamente à livre interpretação do espírito privado _ demoliram todos os fundamentos da Fé, expuseram os Livros Santos às profanações da presunção e da ignorância e abriram a porta a todos os erros.

129. O Protestantismo ou religião reformada, como orgulhosamente a chamam seus fundadores, é o compêndio de todas as heresias que houve antes dele, que houve depois dele e que podem ainda nascer para ruína das almas.

130. Com uma luta sem tréguas que dura já vinte séculos, não cessou a Igreja Católica de defender o depósito sagrado da verdade que Deus lhe confiou, nem de amparar os fiéis contra o veneno das doutrinas heréticas.

131. À imitação dos Apóstolos, sempre que houve pública necessidade, a Igreja, congregada em um Concílio Ecumênico ou Geral, definiu com toda clareza a verdade católica e a propôs como dogma a seus filhos, a apartou de si os hereges, lançando contra eles a excomunhão e condenando seus erros.
Concílio Ecumênico ou Geral é um augusta assembléia, para a qual o Romano Pontífice convoca todos os Bispos do mundo e outros Prelados da Igreja, presidida pelo próprio Papa ou por seus legados. A esta assembléia, que representa toda a Igreja docente, está prometida a assistência do Espírito Santo; e suas decisões em matéria de fé e de costumes, depois de confirmadas pelo Sumo Pontífice, são seguras e infalíveis como a palavra de Deus.

132. O Concílio que condenou o Protestantismo foi o Sacrossanto Concílio de Trento, assim chamado pela cidade em que se celebrou.

133. Ferido com esta condenação, o Protestantismo viu desenvolver-se os germes de dissolução que levava seu viciado organismo: as discussões o dividiram, multiplicaram-se as seitas, que, dividindo-se e subdividindo-se, reduziram-no a fragmentos miúdos.
No presente, o nome protestantismo já não significa uma crença uniforme e espalhada, mas encerra apenas um amontoado, o mais monstruoso, de erros privados e individuais, recolhe todas as heresias, e representa todas as formas de revolta contra a Santa Igreja Católica.

134. Contudo, o espírito protestante, que é o espírito de liberdade insolente e de oposição a toda a autoridade, não deixou de difundir-se. Surgiram muitos homens que, inchados com uma ciência vã e orgulhosa, ou dominados pela ambição e pelo interesse, não hesitaram em forjar ou dar alento a teorias transtornadoras da fé, da moral e de toda a autoridade divina e humana.

135. O Sumo Pontífice Pio IX, depois de haver condenado no Syllabus muitas das proposições mais importantes desses cristãos temerários, para aplicar o machado à raiz do mal, convocara em Roma um novo Concílio Ecumênico. Este começara felizmente sua obra ilustre e benéfica nas duas primeiras sessões que se celebraram na Basílica de São Pedro, no Vaticano (donde lhe veio o nome de Concílio Vaticano), quando, em 1870, por vicissitude dos tempos, teve de ser suspenso.

136. É de esperar que, sossegada a tempestade que agita momentaneamente a Igreja, possa o Romano Pontífice reatar e levar a cabo a obra providencial do Santo Concílio; e que, desfeitos os erros que agora combatem a Igreja e a sociedade civil, possamos logo ver brilhar com nova luz a verdade católica e iluminar o mundo com seus eternos resplendores.

137. Aqui termina nosso resumo, pois não é possível seguir passo a passo os vários sucessores da Igreja, complicados com os acontecimentos políticos, sem dizer coisas menos acomodadas ao entendimento comum, e sem desviarmos de seu fim o objetivo dessas páginas.
O bom católico deve prover-se de um bom compêndio de História Eclesiástica, pedindo conselho ao pároco ou a um douto confessor. Leia-o com espírito de simplicidade e humildade cristã e verá resplandecer na Santa Mãe Igreja os caracteres com que Nosso Senhor Jesus Cristo A distinguiu como única verdadeira Igreja que Ele fundou, os quais são: UNA, SANTA, CATÓLICA e APOSTÓLICA.

138. UNA – Verá resplandecer a unidade da Igreja no exercício ininterrupto da Fé, da Esperança e da Caridade. Verá como, em vinte séculos de vida, sempre jovem e florescente, a Igreja conta com tantas gerações, tanta multidão de homens, diversos em índole, nacionalidade e línguas, unidos em uma sociedade governada sempre por uma mesma e perpétua hierarquia, a professar as mesmas crenças, confortar-se com as mesmas esperanças e participar de orações comuns e dos mesmos Sacramentos, sob a direção dos legítimos Pastores.
Verá a hierarquia eclesiástica, formada de tantos milhares de bispos e Sacerdotes, conservar-se estreitamente unida na comunhão e obediência do Pontífice Romano, que é cabeça divinamente estabelecida, e dele receber os ensinamentos para comunicá-los ao povo com perfeita unidade de doutrina. De onde vem tão maravilhosa união? Da presença e assistência de Jesus Cristo, que disse a seus Apóstolos: “Eis que permanecerei convosco até a consumação dos séculos”.

139. SANTA. – O fiel que ler com retidão de coração a História eclesiástica verá resplandecer a santidade da Igreja, não só na santidade essencial de sua cabeça invisível, Jesus Cristo, na santidade dos Sacramentos, da Doutrina, das Corporações religiosas, de muitíssimos de seus membros, mas também na abundância dos dons celestes, dos sagrados carismas, das profecias e milagres com que o Senhor (negando-se às demais religiões) faz brilhar à face do mundo o dote da santidade de que está adornada exclusivamente sua única Igreja. 
Quem lê com ânimo desapaixonado a História eclesiástica fica atônito ao contemplar a ação visível da divina Providência, que comunicou à Igreja a santidade e a vida, e que vela por sua conservação. Foi Ela quem, desde os primeiros séculos, suscitou aqueles grandes homens, glória imortal do Cristianismo, que, cheios de sabedoria e sobre-humana virtude, combateram vitoriosamente as heresias e erros à medida que iam aparecendo: os Santos Padres e Doutores que “brilharão como estrelas por perpétuas eternidades”, na frase bíblica; de cuja unânime concordância podemos deduzir e reconhecer a Tradição e o sentido das Sagradas Escrituras.
E assombra não menos surgir providencialmente, em tempo e lugar oportuno, aquelas Ordens regulares, aquelas famílias religiosas, aprovadas e abençoadas pela Igreja, nas quais desde o século IV florescia já a vida cristã e se aspirava à perfeição evangélica, praticando os divinos conselhos com os santos votos de castidade, pobreza e obediência.
Veja-se pela História que estas famílias, no transcurso dos séculos, se têm sucedido e vão sucedendo e renovando constantemente, com um fim sempre santo, servindo-se dos meios acomodados à época: a oração, ou o ensino, ou o exercício do ministério apostólico, ou a prática multíplice e variada das obras de caridade.
Como sua Santa Mãe, a Igreja, estão elas também sujeitas a duras perseguições, que amiúde e por algum tempo as oprimem. Mas, como tais institutos pertencem à essência da Igreja pela atuação dos conselhos evangélicos, por isto, não podem perecer de todo. E é coisa averiguada pela experiência que a tribulação as purifica e rejuvenesce; e, renascendo em outro lugar, multiplicam-se e produzem mais copiosos frutos, ficando sempre como fonte inesgotável da santidade da Igreja.

140. CATÓLICA. – Verá o fiel com amargura que tantas vezes, no transcurso dos séculos, multidões imensas de católicos, até nações inteiras, desertaram miseravelmente da unidade da Igreja. Mas verá também que Deus enviava sucessivamente a outros povos e outras nações a luz do Evangelho por meio de homens apostólicos, encarregados por Ele, como o foram os Apóstolos, de guiar as almas para a salvação eterna. E se consolará ao reconhecer que o Senhor se digna confiar em nosso século este apostolado a centenas e milhares de Sacerdotes, de Religiosos de todas as Ordens, de Religiosas que Lhe estão consagradas, os quais percorrem a terra e os mares do velho e do novo mundo para dilatar o Reinado de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Donde seria um erro dar fé às falsidades dos incrédulos segundo as quais o Catolicismo se estaria extinguindo no mundo, como se os homens já não desejassem outra coisa além do progresso das ciências e das artes. Pelo contrário, as estatísticas mostram claramente que o número total de católicos nas cinco partes do mundo, não obstante as perseguições e dificuldades de todo o gênero, cresce a cada ano.
E é de esperar que, tornando-se mais fáceis os meios de comunicação, e com o favor divino, não haverá mais terra acessível onde, em uma modesta Igreja e ao redor de um pobre missionário, não haja um grupo de católicos unidos em pensamento e coração a seus irmãos de todo o mundo, e, por meio de Bispos ou Vigários Apostólicos legitimamente enviados pela Santa Sé, ligados pela mesma unidade na fé e na comunhão.
É isto o que se chama catolicidade da Igreja. Só Ela pode chamar-se católica ou universal, isto é, de todos os tempos e de todos os lugares.

141. APOSTÓLICA. – Ao percorrer a História eclesiástica, verá o fiel sucederem-se entre incríveis dificuldades tantos Pontífices Romanos que, revestidos na pessoa de Pedro das mesmas prerrogativas que Nosso Senhor Jesus Cristo deu a ele, vão comunicando a jurisdição aos sucessores dos demais Apóstolos, dos quais nenhum se separou jamais de Pedro, como agora nenhum poderá separar-se da Sé Romana, sem deixar de pertencer à Igreja, que por isto se proclama e é realmente apostólica.

142. Na História eclesiástica aprenderá o fiel a conhecer e a evitar os inimigos da Igreja e de sua Fé. No transcurso dos séculos encontrará associações ou sociedades secretas e tenebrosas que com vários nomes se foram organizando, não já para glorificar a Deus eterno, onipotente e bom, mas para derrubar seu culto e substituí-lo (coisa incrível, mas verdadeira!) pelo culto do demônio.
Não se assombrará com que os legítimos sucessores de São Pedro, sobre quem fundou Jesus Cristo a sua Igreja, hajam sido e sejam objeto de insultos, de escárnio e de aversão por parte dos hereges e incrédulos, devendo assemelhar-se ao Divino Mestre que disse: “Se a Mim me perseguiram, também a Vós vos perseguirão”.
Mas a verdade que verá deduzir-se da História é esta: que os primeiros Papas foram justamente elevados à honra dos altares, tendo muitos deles derramado seu sangue pela Fé; que quase todos os demais brilharam por seus egrégios dotes de sabedoria e virtude, sempre atentos a ensinar, defender e santificar o povo cristão; sempre prontos, como seus predecessores, a dar a vida em testemunho da palavra de Deus.
Que importa (desgraçadamente entre os doze apóstolos havia um perverso), que importa que, entre tantos, tenha havido uns pouco menos dignos de ascender à Suprema Sé, onde toda e qualquer mancha parece gravíssima? Deus o permitiu para dar a conhecer seu poder em sustentar a Igreja, conservando um homem infalível no seu ensino, ainda que falível em sua conduta pessoal.

Nenhum comentário:

Postar um comentário