sexta-feira, 23 de setembro de 2011

SEGUNDA PARTE
RESUMO DA HISTÓRIA DO NOVO TESTAMENTO

Anunciação da Virgem Maria
81. Reinando Herodes, chamado o Grande, vivia em Nazaré, pequena cidade da Galiléia, uma Virgem santíssima, chamada Maria, desposada com José, a quem o Evangelho chama “varão justo”. Embora fossem ambos descendentes dos Reis de Judá e, portanto, da família de Davi, viviam pobremente e ganhavam o sustento com seu trabalho.

82. A esta Virgem foi enviado por Deus o Arcanjo Gabriel, que A saudou chamando-A “cheia de graça” e Lhe anunciou que Ela seria a Mãe do Redentor do mundo. Ao ouvir estas palavras e à vista do Anjo, turbou-se a princípio Maria, mas logo, tranqüilizada por ele, respondeu: “Eis aqui a escrava do Senhor; faça-se em Mim segundo a tua palavra”. No mesmo instante, o Filho de Deus por obra do Espírito Santo encarnou-se em suas puríssimas entranhas, e, sem deixar de ser verdadeiro Deus, começou a ser verdadeiro homem. Foi esse o começo da redenção do gênero humano.

Visita a Santa Isabel e nascimento de São João Batista
83. No colóquio com o Arcanjo, soube Maria que sua prima Isabel, mulher de um sacerdote chamado Zacarias, embora em idade avançada, ia ter um filho. Com santa solicitude, foi Maria visitar a prima nas montanhas da Judéia, para congratular-Se com ela e, mais ainda, para servi-la como humilde criada, como o fez por três meses
Aqui foi que Maria, respondendo à saudação da prima – que, inspirada pelo Espírito Santo, chamou-A “Mãe de Deus” – entoou aquele cântico Magnificat, que amiúde canta a Igreja.

84. O filho de Isabel foi João Batista, o santo Precursor do Messias.

Nascimento de Jesus e circunstâncias daquele grandioso acontecimento
85. Naquele tempo foi publicado um édito pelo qual o Imperador César Augusto ordenava que todos os vassalos do Império romano se registrassem e que, para isso, cada um se dirigisse à cidade de onde a família era originária. Maria e José, por serem da casa e família de Davi, tiveram de ir à cidade de Belém, onde havia nascido aquele santo Rei. Mas não encontrando hospedagem, pelo grande número de pessoas que ia registrar-se, tiveram de abrigar-se em uma espécie de gruta, que servia de estábulo, não longe da cidade.

86. Foi ali que, à meia-noite, o Filho de Deus, feito homem para salvar os homens, nasceu de Maria Virgem. Ela, envolvendo-o em pobres panos, reclinou-O numa manjedoura onde comiam os animais.
Nessa mesma noite apareceu um Anjo a uns pastores que vigiavam seus rebanhos naquela região, e lhes anunciou que havia nascido o Salvador do mundo. Os pastores correram atônitos ao estábulo, encontraram o Santo Menino e foram os primeiros a adorá-Lo.

Obediência de Jesus e de sua Mãe Santíssima a Lei
87. No oitavo dia após o nascimento, para obedecer à Lei, foi circuncidado o Menino e foi-Lhe posto o nome de Jesus, conforme havia indicado o Anjo a Maria, ao anunciar-Lhe o mistério da Encarnação.
Além disso, Maria Santíssima, por deferência para com a Lei, à qual não estava obrigada, apresentou-Se com Jesus no Templo aos quarenta dias, para a cerimônia da purificação, oferecendo por Si o sacrifício das mulheres pobres, que era um par de rolas, e pelo Menino Jesus o preço do resgate.

88. Havia no Templo um santo velho, chamado Simeão, que havia tido a revelação do Espírito Santo de que não morreria sem ver primeiro o Ungido do Senhor. Tomou em seus braços o divino Menino e, reconhecendo n’Ele o seu Redentor, louvou-O com sumo júbilo, e saudou-O com aquele terno cântico com que a Igreja termina cada dia o Ofício Divino: “Nunc dimittis”: “Deixai ir agora em paz o vosso servo, Senhor, segundo a vossa palavra, pois os meus olhos viram o Salvador que será a glória de Israel e a luz das nações”.
Ao mesmo tempo, acudiu uma velha e piedosíssima viúva, de nome Ana, que vendo o divino Menino regozijou-se em seu coração, e dizia maravilhas d’Ele a todos os que esperavam a redenção de Israel.

Os Magos
89. Algum tempo depois do nascimento de Jesus, entraram em Jerusalém três Magos ou sábios, vindos do Oriente, e perguntaram onde havia nascido o Rei dos judeus. Pois, estando em sua terra, haviam visto uma estrela extraordinária, e por ela, em virtude de uma antiga profecia conhecida no Oriente, entenderam que devia ter nascido na Judéia o Desejado das nações; e, inspirados por Deus, seguiram o caminho indicado pela estrela e O vieram adorar.
Reinava então em Jerusalém Herodes, o Grande, homem ambicioso e cruel. Perturbou-se ele grandemente com as palavras dos Magos, e informou-se com os príncipes dos sacerdotes em que lugar havia de nascer o Messias. Havendo sabido que o lugar indicado pelos profetas era Belém, enviou para lá os Magos e recomendou que voltassem logo, fingindo que queria ir também lá adorar o Menino recém-nascido. 
Partiram os Magos, e, imediatamente, a estrela que haviam visto no Oriente voltou-lhes a aparecer, e foi-lhes guiando até Belém, parando sobre o lugar onde estava o Menino Jesus. Entraram nele e, encontrando o Menino com Maria, sua Mãe, prostrados O adoraram, e, abertos seus tesouros, ofereceram-Lhe ouro, incenso e mirra, reconhecendo-O assim como Rei, como Deus e como Homem mortal. Pela noite, avisados em sonhos para que não voltassem a Herodes, regressaram por outro caminho à sua terra.

Morte dos inocentes e fuga para o Egito
90. Herodes esperou em vão pelos Magos. Vendo-se enganado, enfureceu-se em extremo e, esperando em sua bárbara astúcia matar Jesus, mandou que se matassem todos os meninos de menos de dois anos que houvesse em Belém e redondezas.
Um Anjo, porém aparecera antes em sonhos a José avisando-o disso e dando-lhe ordem de que fugisse para o Egito. José obedeceu imediatamente e foi com Maria e Jesus para o Egito, onde ficaram até a morte de Herodes. Depois disso, avisado novamente pelo Anjo, voltou, mas não a Belém da Judéia, e sim a Nazaré da Galiléia.

Jesus no Templo entre os Doutores
91. Chegado Jesus aos doze anos, levaram-n’O seus Pais a Jerusalém, para as festas da Páscoa, que duravam sete dias. Acabadas as festas, Maria e José partiram para Nazaré; mas Jesus, sem que eles soubessem, ficara em Jerusalém. Depois de uma dia, procuraram-n’O em vão entre os parentes e conhecidos, e, aflitos, voltaram a Jerusalém, encontrando-o ao terceiro dia no Templo, sentado entre os Doutores, ouvindo-os e interrogando-os. Sua Mãe perguntou-Lhe docemente porque se havia deixado procurar assim; a resposta que deu Jesus foi a primeira declaração de Sua divindade: “E por que me procuráveis? Não sabíeis que é preciso ocupar-Me das coisas de meu Pai?”
Depois disto, Jesus voltou com eles para Nazaré. Desde esse ponto até a idade de trinta anos nada de particular nos conta o Evangelho sobre Ele, resumindo toda a história desse período nestas palavras: “Jesus vivia obediente a Maria e José, e crescia em idade, sabedoria e graça diante de Deus e dos homens”.
Pelo fato de ter passado em Nazaré o tempo de sua vida privada, foi chamado mais tarde Jesus Nazareno.

Batismo de Jesus e seu jejum no deserto
92. João, filho de Zacarias e Isabel, destinado por Deus, como vimos, para ser o Precursor do Messias e preparar os judeus para que o recebessem, havia-se retirado para o deserto para levar vida penitente.
Chegado o tempo de dar princípio à sua missão, vestido de pele de camelo e cingido com um cinto de couro, saiu para as margens do Jordão e começou a pregar e batizar. Ele dizia: “Fazei penitência, porque está próximo o Reino dos Céus”.
Um dia apresentou-se no meio da multidão do povo Jesus, que, tendo chegado aos trinta anos, devia começar a manifestar-Se ao mundo.
João, que O reconheceu, quis ao princípio escusar-se, mas dobrou-se à ordem de Cristo e O batizou. Eis que, apenas Jesus saiu da água, abriram-se os céus, e o Espírito Santo, sob a forma de uma pomba, desceu sobre Ele, e ouviu-se uma voz que dizia: “Este é meu Filho muito amado, em Quem pus as minhas complacências!”
Recebido o batismo e guiado pelo Espírito Santo, foi Jesus para o deserto, onde passou quarenta dias e quarenta noites em jejuns, vigílias e orações. Foi então que quis ser tentado de várias formas pelo demônio, para nos ensinar a vencer as tentações.

Primeiros discípulos de Jesus e seu primeiro milagre
93. Depois desta preparação, Jesus para dar começo à sua vida pública, voltou para as margens do Jordão, onde João seguia pregando. Este, ao vê-lo aproximar-Se, exclamou: “Eis aqui o Cordeiro de Deus, eis Aquele que tira os pecados do mundo”. Por este e por outros testemunhos em favor de Jesus, repetidos no dia seguinte, dois discípulos de João o Divino Mestre. Um destes, de nome André, encontrando-se com seu irmão chamado Simão, levou-o a Jesus, que, olhando-o no rosto, disse-lhe: “Tu és Simão, filho de João; de agora em diante te chamarás Pedro”. E estes foram seus primeiros discípulos.

94. Outros muito, ou chamados por Ele, como Tiago, João, Filipe e Mateus, ou movidos pela sua palavra, resolveram segui-Lo. No começo não ficavam continuamente com Jesus, mas depois de ouvir suas palavras, voltavam aos seus afazeres e suas famílias; só algum tempo depois é que deixaram tudo para seguir o Mestre e não O abandonaram mais. 
Jesus foi convidado com alguns de seus discípulos para um casamento, em Caná da Galiléia; também sua Mãe, Maria, havia sido convidada. Esta foi a ocasião em que, por intercessão de sua Mãe Santíssima, Jesus transformou uma grande quantidade de água em vinho finíssimo. Este foi o primeiro milagre de Jesus, pelo qual manifestou a própria glória e confirmou na fé os discípulos.

Eleição dos Doze Apóstolos
95. Dentre estes discípulos, Nosso Senhor escolheu doze, chamados Apóstolos, para que estivessem sempre com Ele, e para enviá-los a pregar. Foram eles: Simão, a quem havia dado o nome de Pedro, e seu irmão André; Tiago e João filhos de Zebedeu; Filipe; Bartolomeu; Mateus; Tomé; Tiago, filho de Alfeu; Judas Tadeu; Simão Cananeu; e Judas Iscariotes, que O havia de trair. Para chefe dos Apóstolos escolheu a Simão Pedro, que haveria de ser depois seu Vigário na terra.

Pregação de Jesus
96. Acompanhado dos Apóstolos e outras vezes precedido por eles, percorreu Jesus pelo espaço de três anos toda a Judéia e toda a Galiléia, pregando seu Evangelho, e confirmando sua doutrina com um número infinito de milagres.
De ordinário, aos sábados entrava na sinagoga e ensinava; mas não escolhia lugar para ensinar, e fazia-o sempre que aparecia ocasião. Lemos, com efeito, que as turbas O seguiam e que Ele não só pregava nas casas e praças, mas também ao ar livre, nos montes e no deserto, nas praias e até do meio do mar, sobre a barca de Pedro. – O célebre sermão das oito bem-aventuranças é conhecido como Sermão da Montanha pelo lugar em que o pronunciou.
Não pregava menos com o exemplo do que com a palavra. Admirados de sua longa oração, pediram-Lhe um dia os discípulos que os ensinasse a rezar, e Jesus ensinou-lhes a sublime oração do Pai-Nosso.

97. Por várias razões, entre as quais para acomodar-se à capacidade da maior parte de seus ouvintes e à índole dos povos orientais, servia-Se Jesus comumente de parábolas ou comparações. São singelas as do filho pródigo, do samaritano, do bom pastor, dos dez talentos, das dez virgens, do rico mau e o pobre Lázaro, do mordomo infiel, do servo que não quer perdoar, dos operários da vinha, dos convidados às núpcias, do grão de mostarda, do semeador, do fariseu e do publicano, do joio e do trigo, e outras muito conhecidas dos bons católicos que assistem à explicação dos Evangelhos aos domingos nas Paróquias.

98. Comumente, depois de seus discursos, apresentavam-Lhe enfermos de todos os tipos: mudos, surdos, paralíticos, cegos, leprosos; e Ele a todos devolvia a saúde.
Não só nas sinagogas ia derramando suas graças e favores; mas em qualquer lugar em que Se achava, sempre que aparecia ocasião, socorria os infelizes que em grande número Lhe eram levados, não só da Palestina e regiões vizinhas, chegando até a Síria a fama de seus milagres. Levavam-Lhe especialmente possessos do demônio, dos quais havia não poucos naquele tempo, e Ele os livrava dos espíritos malignos, que saíam gritando: “Tu és o Cristo, o filho de Deus!”

99. Duas vezes, com uns poucos pães milagrosamente multiplicados, deixou fartas e satisfeitas as multidões que o seguiam pelo deserto; às portas de Naim, ressuscitou o filho de uma viúva que ia ser enterrado; e pouco antes da Paixão ressuscitou a Lázaro, cujo corpo já cheirava mal na sepultura onde estava havia quatro dias.

100. Infinito é o número dos milagres, muitos dos quais famosíssimos, que fez Jesus nos três anos de sua pregação, para demonstrar que falava como enviado de Deus, que era o Messias esperado pelos Patriarcas e vaticinado pelos Profetas, que era o próprio Filho de Deus. Tal se manifestou em sua transfiguração no Tabor, pelo resplendor de sua glória e pela voz do Pai, que O proclamava seu Filho muito amado.
À vista de tais milagres, muitos se convertiam e O seguiam, muitos O aclamavam e chegaram a buscá-Lo para fazê-Lo Rei

Guerra aberta contra Jesus
101. Esses triunfos de Jesus despertaram desde o princípio a inveja dos escribas e fariseus, dos príncipes dos sacerdotes e dos anciãos do povo, inveja que aumentou em extremo quando Ele Se pôs a desmascarar sua hipocrisia e a reprovar seus vícios. Não tardaram em persegui-Lo e desacreditá-Lo e até em chamá-Lo de endemoninhado, procurando encontrar contradições em suas palavras, tanto para O desautorizar ante o povo como para O acusar ante o governador romano.
Essa inveja foi crescendo e se exacerbou mais quando, em consequência da ressurreição de Lázaro, se multiplicou grandemente o número dos judeus que creram n’Ele. Reuniram-se então para tramar sua morte, e o pontífice Caifás terminou com estas palavras: “É preciso que um homem morra pelo povo e não pereça toda a nação”. Dizia, sem o saber, uma profecia, pois na verdade, pela morte de  Jesus, havia de ser salvo todo o mundo.

Causa do ódio extremo. Traição de Judas
102. Finalmente, seu aborrecimento chegou ao cúmulo quando, próximo da Páscoa (era a quarta que Ele celebrava em Jerusalém depois que começara a sua pregação), estando a cidade cheia de forasteiros que de todas as partes vinham para a festa, Jesus entrou triunfante sobre um jumentinho, aclamado pelo povo que, com palmas e ramos de oliveira, havia saído ao seu encontro, enquanto muitos estendiam seus mantos pelo caminho e outros cortavam ramos e flores que espalhavam por onde Ele ia passar.

103. Então os anciãos do povo, os príncipes dos sacerdotes e os escribas se reuniram em casa do pontífice Caifás, e combinaram prender Jesus com algum ardil e às escondidas, por medo que as turbas se alvoroçassem. A ocasião não se fez esperar: Judas Iscariotes, um dos doze Apóstolos, possuído pelo demônio da avareza, ofereceu entregar-lhes o Divino Mestre por trinta moedas de prata.

A última Ceia. Instituição do Sacramento da Eucaristia
104. Era o dia em que se devia sacrificar e comer o cordeiro pascal. Chegada a hora indicada, veio Jesus à casa onde Pedro e João, mandados por Ele, haviam preparado tudo para a ceia, e puseram-se à mesa.

105. Nesta última ceia, Jesus deu aos homens a maior prova de seu amor, instituindo o Sacramento da Eucaristia.

Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo
106. Acabara a ceia, saiu da cidade nosso Divino Redentor, acompanhado pelos Apóstolos. Dizendo-lhes pelo caminho as coisas mais ternas e dando-lhes os ensinamentos mais sublimes, foi como costumava, ao jardim de Getsêmani, ou Horto das Oliveiras, onde, pensando em sua própria Paixão, orando e oferecendo-Se ao Pai Eterno, suou sangue vivo e foi confortado por um Anjo.

107. Veio Judas, o traidor, à testa de um esquadrão de gente atrevida, armada de paus e espadas, e deu a Jesus um beijo, que era o sinal combinado para dá-Lo a conhecer.
Jesus, abandonado pelos Apóstolos, que fugiram de medo, viu-Se logo preso e amarrado por aqueles esbirros, e com toda a espécie de insultos e maus tratos foi arrastado, primeiro à casa de um príncipe dos sacerdotes, chamado Anás, depois à do pontífice Caifás, que naquela mesma noite reuniu o Sinédrio, o qual declarou Jesus réu de morte.

108. Dissolvida a junta dos juízes, foi Jesus entregue aos soldados, que durante toda a noite O injuriaram e ultrajaram com bárbaros tratos.
Nessa mesma dolorosa noite, Pedro amargurou o Coração de Jesus, caiu em si e chorou seu pecado por toda a vida.

109. Depois de amanhecer, havendo-se reunido de novo o Sinédrio, foi Jesus levado ao governador romano, Pôncio Pilatos, a quem o povo pediu aos gritos que Lhe desse a morte. Pilatos, que conhecia a inocência de Jesus e a perfídia dos judeus, procurava um meio de salvá-Lo; e devendo por ocasião da Páscoa dar liberdade a um malfeitor, deixou que o povo escolhesse entre Jesus e Barrabás, um facínora. O povo escolheu Barrabás!...
Pilatos, ouvindo dizer que Jesus era Galileu, enviou-o a Herodes Antipas, que regia aquela província e estava em Jerusalém para a Páscoa. Este O desprezou e tratou como louco, devolvendo-O vestido por escárnio com a túnica branca dos insensatos.
Por fim, Pilatos fez açoitar a Nosso Senhor pelos soldados, os quais depois de O terem transformado em uma chaga viva, com atroz insulto colocaram-Lhe na cabeça uma coroa de espinhos, sobre os ombros um trapo de púrpura, na mão um bordão, e zombaram d’Ele saudando-O como rei.
Mas, não bastando isso para acalmar o furor de Seus inimigos e da plebe amotinada, Pilatos condenou Jesus à morte na cruz.

110. Jesus, então teve de carregar sobre os ombros o pesado madeiro da cruz e levá-lo até o alto do monte Calvário. Ali, despido, cravado na cruz entre dois ladrões, abeberado com mirra e fel, submerso em um mar de angústias e dores, depois de três horas de penosíssima agonia, expirou rogando pelos que O crucificavam, os quais, nem assim, deixaram de manifestar sua fúria contra Ele... Depois de morto, transpassaram-Lhe o coração com uma cruel lançada.

111. Não há mente humana capaz de imaginar, nem língua que saiba exprimir, quanto padeceu Jesus desde a noite de Sua prisão, nos diversos caminhos de um tribunal para outro, na flagelação e coroação de espinhos, na crucifixão e, finalmente, em sua prolongada agonia!... Só o amor, que foi sua causa, pode despertar uma pálida idéia de tudo isto nos corações compadecidos.
Maria Santíssima assistiu com sobre-humana fortaleza à morte de seu divino Filho e uniu o martírio de seu coração às dores d’Ele para a Redenção do gênero humano.
O Pai celeste fez com que resplandecesse a divindade de Jesus em sua morte, como o havia feito em sua vida: estando Ele na cruz, obscureceu-se o sol e cobriu-se a terra de espessas trevas; e, ao expirar, tremeu a terra com espantoso terremoto, rasgou-se de alto a baixo o véu do Templo, e muitos mortos, saídos da sepultura, foram vistos em Jerusalém e apareceram a muitas pessoas.

Sepultura de Jesus. Ressurreição e Ascensão aos Céus
112. Jesus foi crucificado e morreu na sexta-feira, e na mesma tarde, antes do pôr-do-sol, foi descido da cruz e depositado em um sepulcro, no qual puseram selo e guardas, com medo de que os discípulos O roubassem.
Ao raiar a aurora do dia que se seguiu ao sábado, sentiu-se um grande terremoto: Jesus havia ressuscitado e saído glorioso e triunfante do sepulcro. Depois de aparecer a Madalena, deixou-se ver pelos Apóstolos para alentá-los e consolá-los; alguns Santos Padres pensam que Ele apareceu primeiramente à sua Mãe Santíssima.

113. Quarenta dias esteve Jesus na terra depois de sua ressurreição, mostrando-Se em diversas aparições a seus discípulos e conversando com eles. Assim fortalecia de modo milagroso os Apóstolos, confirmava-os na fé, comunicava-lhes coisas altíssimas e dava-lhes as últimas instruções; até que aos quarenta dias, os reuniu no Monte das Oliveiras e tendo-os abençoado, visivelmente e a seus olhos elevou-se da terra e subiu aos Céus.

Vinda do Espírito Santo. Pregação dos Apóstolos.
114. Os Apóstolos, seguindo as ordens do Divino Mestre, recolheram-se depois ao Cenáculo de Jerusalém. Ali, por espaço de nove dias esperavam em oração o Espírito Santo, que Jesus lhes havia prometido, e que desceu sobre eles na forma de línguas de fogo na manhã do décimo dia, chamado Pentecostes.
115. Eles, então, transformados em novos homens, começaram de repente a falar diversas línguas, segundo o Espírito os movia a falar. Naqueles dias viviam em Jerusalém judeus de todas as nações; uma multidão deles acorreu para presenciar aquele prodígio, e em um sermão que lhes fez Pedro sobre as profecias verificadas na pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo, e sobre os milagres operados por Ele, converteram-se três mil ouvintes.
Alguns dias depois, o mesmo São Pedro, junto com o Apóstolo São João, depois da cura milagrosa de um paralítico de nascimento, falando àquela multidão, trouxe à Fé outros cinco mil.
Não só em Jerusalém, como também em toda a Judéia onde pregavam os Apóstolos, ia crescendo o número dos que criam em Jesus.

116. Mas logo os anciãos do povo e os príncipes dos sacerdotes começaram a perseguir os Apóstolos, e, chamando-os às sua presença, repreenderam-nos asperamente, proibindo-lhes que continuassem a falar de Jesus. Eles respondiam: “Não podemos calar o que vimos e ouvimos; julgai vós mesmos se é lícito obedecer aos homens desobedecendo a Deus”. Então os prenderam e maltrataram; e mataram a pedradas o diácono Santo Estevão.
E os Apóstolos, alegres por terem sido dignos de padecer por Jesus Cristo, tiveram maior alento para pregar, e crescia sem cessar o número dos que se convertiam.

O Apóstolo São Paulo
117. O mais célebre dos convertidos ao Evangelho foi Saulo, depois chamado Paulo, natural de Tarso, que tinha sido inimigo furioso e perseguidor dos cristãos, e que depois, tocado pelo poder divino, veio a ser vaso de eleição, o mais zeloso e trabalhador dos Apóstolos.
Incríveis foram os caminhos, fadigas e tribulações deste prodígio da graça para fazer conhecer o nome e a doutrina de Jesus Cristo entre os gentios; daí ser chamado Doutor das gentes. Pregando a Fé não com o aparato da sabedoria humana, mas com milagres, convertia os povos, por mais que fosse perseguido pelos inimigos da cruz de Cristo. Estas perseguições o levaram providencialmente a Roma, onde pregou aos judeus que ali residiam e aos pagãos. Depois de outras peregrinações, voltou a Roma, e, coroando ali sua apostólica vida com o martírio, foi degolado sob o Imperador Nero, o mesmo que mandou crucificar São Pedro.

118. São Paulo deixou-nos 14 cartas, ou Epístolas, escritas a maior parte para as igrejas que havia fundado, e que são outro sinal da missão apostólica que lhe deu Nosso Senhor; pois, como observava Santo Agostinho, estão escritas com tanta elevação, lucidez, profundidade e unção, que revelam o Espírito de Deus.

Dispersão dos Apóstolos pelo mundo inteiro
119. Depois de terem pregado o Evangelho na Judéia, segundo a ordem de Jesus, os Apóstolos se separaram e foram pregá-lo por todo o mundo: São Pedro, cabeça do Colégio Apostólico, dirigiu-se a Antioquia, onde os que criam em Jesus Cristo começaram a ser chamados Cristãos. De Antioquia passou a Roma e ali estabeleceu sua sede, sem mudá-la mais para outro lugar. Ele foi Bispo de Roma, e na mesma cidade acabou sua vida com um glorioso martírio, como se disse acima, sendo imperador Nero.
Os sucessores de São Pedro na Sé romana herdaram o supremo poder de Mestre infalível da igreja que o Senhor lhe havia conferido, de fonte de toda a jurisdição, e de protetor e defensor de todos os cristãos. Por esta razão chamam-se justamente Papas, que quer dizer Pais, e sucederam-se uns aos outros sem interrupção de Pedro a nossos dias.

120. Todos os Apóstolos, concordes e unânimes em comunhão com Pedro, pregavam em todas as partes a mesma Fé; os povos se convertiam e deixavam a idolatria, de maneira que em breve o mundo se encheu de cristãos, para cujo governo os Apóstolos iam constituindo Bispos que continuassem seu ministério.

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