terça-feira, 26 de março de 2013

Motu proprio summorum pontificum (Assistir ou não? eis a questão!)

Motu proprio summorum pontificum (Assistir ou não? eis a questão!)


Traduzido da Revista Sel de la Terre, nº 70 (Couvent dela Haye-aux-Bonshommes, 49240, AVRILLÉ – FRANCE).
Na saída da capela, o padre discute com um fiel, Filipe, de 17 anos. Durante a conversa, Filipe conta como se passou o seu último fim-de-semana com amigos da região de Paris. Filipe diz que o grupo escolheu ir à missa dos ralliés²
Filipe: Mas porque este ar reprovador? Não é a missa verdadeira?
Padre: Sem dúvida, a missa é boa. Mas isto não é o principal.
Filipe: Não é o principal? Mas o que é que falta, padre?
Padre: Bem, vou fazer uma comparação. Um licor é uma boa coisa, não é? (Filipe concorda com um sorriso). Pois bem. Mas cada vez que se bebe um licor, não se faz necessariamente uma boa ação (Filipe compreende). Ocorre algo de semelhante com a santa missa. Uma coisa é o fato de a missa ser, em si mesma, uma boa coisa. Mas é preciso também que o assistir a essa missa seja também bom; é necessário que a assistência a essa missa seja uma boa ação.
Filipe: Sim, mas um licôr e a missa não são a mesma coisa! O senhor parece querer dizer que se pode fazer o mal assistindo à missa tradicional!
Padre: Exatamente, é isto mesmo que eu quero dizer! Assim como se pode fazer um mau uso de um licor, do mesmo modo não é sempre bom assistir à verdadeira missa. Pode até ser um mal.
Filipe: Essa é a maior!
Padre: Caro Filipe, sua surpresa é um tanto compreensível. Normalmente, um católico não tem motivos de se questionar quando assiste a uma missa católica. Na atualidade, porém, existem muitas coisas anormais na Igreja. Nós, por exemplo, celebramos a missa em salas improvisadas, enfrentando a hostilidade do clero da região, estigmatizados, sendo considerados como excomungados, cismáticos … Muita gente não vem aqui porque crêem que isto é praticar o mal. E, no entanto, é realmente a verdadeira missa! O que ocorre, é que eles se enganam pensando que é mal vir aqui.
Filipe: Sim, eles se enganam, já que aqui é a verdadeira missa!
Padre: Não, Filipe, preste atenção. O problema deles não é a missa. O problema deles é que lhes disseram que é mal ir a ela. É bem diferente. Pois bem, o problema com os ralliés é do mesmo gênero: a sua missa é boa, certo, mas é bom ir a ela? Isto é uma outra questão! Percebe a distinção?
Filipe: Sim, eu vejo a distinção. Mas eu não vejo realmente porque não é bom ir a uma missa da Fraternidade São Pedro, ou de Cristo-Rei!
Padre: Veja, quando se começa a interrogar se assistir a tal ou tal missa é bom ou não, passamos logo a falar daquele que celebra a missa. Interessante, não?
Filipe: Não me parece muito claro…
Padre: Pois bem! Digamos, como você acaba de fazer; eu vou à verdadeira missa na Fraternidade São Pedro, em Cristo-Rei, na Fraternidade São Pio X, na praça Foch, ou na rua Buisson, e a missa celebrada nestes diferentes lugares é a mesma. Todavia, assistir aqui ou acolá, isto não é a mesma coisa. Depende de quem  a celebra.
Filipe: Porque?
Padre: Porque a missa e um licor não são a mesma coisa! Há pouco, você poderia ter me dito: quanto a mim, quando eu bebo um licor, eu me previno. Jamais tenho problemas. Bebo sempre com moderação! Mas a missa não é uma coisa que se consome sozinho num canto, de maneira privada.
Filipe: É então o que? Eu vou à missa para me recolher, para rezar, para comungar. Pouco me importa se o padre é da Fraternidade São Pedro ou São Pio X. Que os senhores se acertem!
Padre: A santa missa é o ato mais elevado do culto público da Igreja. Quer dizer que é, antes de tudo, um ato social, no qual se honra o nosso Deus e se recebe seus benefícios sob a autoridade da Igreja, sociedade que Deus instituiu para poder ser honrado como Ele o quer.
Filipe: Hum… Um pouco difícil de entender, padre.
Padre: Vou recomeçar. Em privado, você pode rezar muito livremente, quando quiser, como quiser; de qualquer maneira, trata-se de uma oração. Mas o Bom Deus quis ser honrado também, e sobretudo, reunindo os homens em torno da cruz, para a missa; isso é que é a oração pública e oficial da Igreja. É assim que ela presta a Deus, em nome de todos os homens, toda a honra e glória que lhe são devidos. Portanto, a missa não é uma devoção privada nem dos assistentes nem dos padres que a celebram. É um ato comum de culto, o que supõe que aquele que celebra tenha recebido da Igreja a autoridade para o fazer. Ele deve depender de um bispo, o qual depende do papa. É por isso que eu falava da autoridade da Igreja.
Filipe: Mas o senhor, padre, o senhor é independente desta autoridade.
Padre: Pois bem, Filipe, chegamos ao coração do problema. O que você diz, é o que dizem os “conciliares” e os que crêem neles, quando eles dizem que assistir às nossas missas não é permitido.  Mais uma vez, não é porque a missa que celebramos seja má, mas porque nós resistimos à Hierarquia, a Roma. E nós dizemos: não se deve assistir à missa dos ralliés, porque eles se submetem à hierarquia conciliar.
Filipe: Se bem compreendo, então o fundo do problema é o da submissão á hierarquia atual?
Padre: Exatamente! Normalmente, na Igreja, um padre está submetido a seu bispo, que está submetido ao papa; assim ele recebe uma missão de celebrar a missa e os outros sacramentos para uma porção dos fiéis da Igreja. Ora, desde umas três décadas constata-se que, para guardar a fé, os fiéis pediram a padres, que também  queriam guardá-la, para que estes se ocupassem deles, a ponto de resistir aos bispos e ao papa. Como bons Gauleses³, não queriam resistir por resistir, mas queriam defender sua fé  diante das decisões de Roma, que contribuíam para a perda da fé dos fieis.
Filipe: Que decisões?
Padre: Por exemplo, a promulgação da nova missa de Paulo VI, em 1969. Mas antes, houve o Concílio, com  vários textos ruins, sobretudo sobre o ecumenismo e a liberdade religiosa. Mais tarde, houve mudanças nos outros sacramentos, depois o novo direito canônico, em 1983. Houve muitos escândalos de ecumenismo, como Assis, em 1986. e depois, houve a luta feroz contra D. Lefebvre que só fazia, como ele mesmo disse várias vezes, o que ele sempre tinha feito, com a aprovação de Roma. Em 1988, D. Lefebvre sagrou bispos porque ele compreendeu que Roma queria destruir a Tradição. A fé dos fiéis continuava sendo ameaçada. E isto é o essencial que deve ser compreendido: a hierarquia, os bispos, o papa, estão nas suas funções para conduzir os padres e os fiéis na fé. Se eles não fazem isto, os fiéis e os padres devem resistir e procurar guardar a fé. E isto acaba sendo uma forma de submissão mais elevada.

Filipe: Bem… Mas o que tem a ver com isto a missa dos ralliés? Se for à missa deles vou perder a fé ?
Padre: É necessário considerar o problema sob um outro aspecto…
Filipe: Sob um outro aspecto?
Padre: Sim, um outro aspecto. A questão de saber se eu vou perder a fé é capital. Mas, o que é preciso que se interrogue é: qual é a atitude de fé que convêm diante damissa dos ralliés? Não existe na sua questão um subtendido, do tipo: já que é a verdadeira missa, se eu me prevenir, não haverá problemas comigo, como quando eu bebo um licor. Estou enganado?
Filipe: Não, padre, é assim mesmo!
Padre: Portanto, é preciso considerar o outro aspecto, que foi explicado há pouco. A missa é antes de tudo um ato público e hierárquico. A missa de um padre rallié é a missa de um padre que, ao menos oficialmente, obedece ao bispo do lugar e ao papa, logo um padre que vai receber, de vez em quando, o seu bispo para as cerimônias, um padre que não prega que a nova missa é má, perigosa para a fé, um padre que vai assim congregar em torno de si fiéis cuja fé é mais fraca, menos informada a respeito dos sérios perigos que ameaçam a vida cristã na igreja conciliar, um padre que, se for lógico consigo mesmo, considerará que a situação da Igreja hoje é grosso modo, normal, de qualquer modo normal o suficiente para tornar a resistência da Fraternidade São Pio X ilegítima, um padre que, obedecendo a autoridades liberais e modernistas vai inevitavelmente se desviar, um padre que, finalmente, trai tudo o que fez D. Lefebvre, que trai as almas, as engana, fazendo-as crer, através de sua submissão pública à hierarquia, que o papa conduz verdadeiramente suas ovelhas e seus carneiros nos caminhos da verdadeira fé…
Filipe: O senhor está exagerando um pouco, padre!
Padre: Assim falava D. Lefebvre no seu tempo! Um padre rallié, atualmente, não assume uma posição justa na Igreja. Ele não está em ordem com o Bom Deus. Não está na verdade. Há nele o conflito entre o desejo de bem fazer e a submissão às autoridades conciliares. Seus sermões se ressentem disto obrigatoriamente. Suas revistas, sites, etc., também; haverá documentos da diocese no fundo de suas igrejas. Existe ainda o sério risco de , com o tempo, deixar-se levar pela tibieza por causa do contato com fiéis bem menos formados na fé, havendo também o risco de se deixar atrair por uma doutrina mais acomodada, ou pela simpatia por fiéis ou padres (da igreja “conciliar”, ndt).
Filipe: Portanto, não se pode jamais assistir à missa dos ralliés?
Padre: Não se pode jamais desagradar a Deus!Essas missas não são para nós! Se, por razões excepcionais, acabamos por estar presentes numa cerimônia de ralliés, convêm então observar uma atitude discreta, evitando dar a impressão de que se adere à sua submissão aos bispos ou ao papa.. Por exemplo, abstendo-se de comungar. Pois é preciso se preocupar com o exemplo que se dá aos outros.
Filipe: E no domingo, quando não há outra missa?
Padre: Se você compreendeu bem nossa conversa, você tem condições de concluir por si mesmo que, no domingo, neste caso, não se é obrigado a assistir à missa de um padre que não confessa publicamente que a Igreja “conciliar” põe a fé dos fiéis em perigo. Não é possível haver obrigação nestas condições. Nosso Senhor te dará graças de outro modo, nem que fosse te recompensando por tua corajosa fidelidade e apego à verdade.
Filipe: Apego à verdade?
Padre: Sim, à verdade. Resumamos um pouco. Dizia no começo: a missa dos ralliés é boa, mas esta não é a questão. A questão é: é verdadeiramente bom assistir a esta missa? Será que eu adiro verdadeiramente à Igreja, a Nosso Senhor através desta missa? A resposta é não, porque o padre rallié não assume uma posição verdadeira, ele não resiste aos maus pastores, como é sua obrigação. Ele se engana, e engana os outros. Como você  poderá encontrar ao lado dele, sob sua influência e autoridade de padre, um verdadeiro amor da verdade, de Nosso Senhor, de sua Igreja, e até mesmo do papa? Pois ele se engana a respeito de uma questão essencial!
Filipe: Decididamente, estas conclusões vão além do que eu achava!
Padre: Sim, é preciso reconhecer que não é algo evidente. Hoje em dia é necessário, como nunca antes, buscar uma formação, saber o que se faz. Pois o perigo está em toda parte. Mas é também um período extraordinário, como dizia D. Lefebvre, pois isto nos leva a amar de maneira mais verdadeira à Igreja, a Nosso Senhor, e a permanecer firmes na fé! E é também o melhor serviço de caridade que se pode  prestar àqueles que têm dificuldades em compreender todas os aspectos da situação atual. Sejamos testemunhas da verdade e da vontade de Deus!

Pe. Jacques Mérel, FSSPX

[1] – Os ralliés (em português, aliados) são aqueles que seguem a liturgia tradicional, mas que fizeram acordos com as autoridades da Roma conciliar. É o caso, por exemplo, do Instituto do Bom Pastor (IBP), ou da Administração Apostólica São Maria Vianney, de Campos, (ndt).
[2] – Trata-se de uma conversa fictícia, em estilo coloquial.
[3] – Um dos povos antigos   que formaram o povo francês (ndt).
Retirado de: http://luzdaverdadecrista.blogspot.com.br/2012/05/pe.html

quarta-feira, 20 de março de 2013

OS FIÉIS TEM O DIREITO DE SABER


OS FIÉIS TEM O DIREITO DE SABER

Tradução: Capela Nossa Senhora das Alegrias - Vitória/ES
Observação a respeito da tradução: capela@nossasenhoradasalegrias.com.br

LASAPINIÈRE

“Os fiéis tem todo o direito de saber que os sacerdotes aos quais se dirigem não estão em comunhão com uma falsificação de Igreja, evolutiva, pentecostalista e sincretista” (Carta aberta a Sua Eminência Cardeal Gantin, Prefeito da Congregação dos Bispos, Ecône, 6 de julho de 1988, Fideliter N° 64, julho-agosto de 1988, págs.. 11-12)

Não se trata de um “zelo amargo” nem de “atuar com uma dureza contínua”, mas de constatar certo liberalismo na Fraternidade. Os fatos estão ali e nada se pode contra os fatos.

Não se trata de culpar todo aquele que não esteja de acordo com nosso ideal, se trata de constatar e de se interrogar sobre o fato de que os sacerdotes da Fraternidade não atuam segundo o ideal da Fraternidade. A conduta doutrinal excelente de tal superior, o zelo detal prior pode esconder esta realidade ante nossos olhos, mas é um fato que, influenciados pelos exemplos e os discursos de nosso Superior Geral, certos confrades, possuindo a etiqueta “Fraternidade Sacerdotal São Pio X” se conduzem à prática como os que já aderiram à Roma, e isto até mesmo antes da adesão à Igreja Conciliar.

Os fiéis tem todo o direito de saber que um prior, durante uma sessão de teologia, notou que não podia dizer: “Bento XVI é um modernista”. Este prior confiou também a um confrade de já não poder, em consciência, rezar aos fiéis pela “conversão de Roma e dos bispos”, intenção que é parte das intenções da Fraternidade (Cor Unum nº 35)

Os fiéis tem todo o direito de saber que dois priores confiaram ao Superior de um Distrito importante que estavam prontos para celebrar a Missa Paulo VI (1º canon). O que se une à observação de Mons. Fellay ao cardeal Cañizares durante uma visita de uma badia “NovusOrdo” perto de Florença [Itália].

“Se Mons. Lefebvre tivesse conhecido como se celebrara ali, não teria dado o passo que deu”.

É zelo amargo escandalizar-se com estas reações? Os cardeais Bacci e Ottaviani não teriam aprovado o “breve exame crítico” por convite de Mons. Lefebvre, se tivessem visto “como se celebrava a Missa ali?

Os fiéis tem todo o direito de saber que em Kansas City um sacerdote repreendeu a um fiel, senhor B., por falar mal do “Novus Ordo”. Este sacerdote lhe disse: “agora já não se fala assim”. 

Os fiéis tem todo o direito de saber que em Post Falls um prior declarou recentemente que o papel da Fraternidade não era combater o Concílio Vaticano II, mas o de velar pela santificação dos sacerdotes, como se estes dois deveres pudessem ser opostos.

Os fiéis tem todo o direito de saber que em Chartres um prior, para tentar justificar a política de Mons. Fellay, tentou convencer um confrade que a beatificação de João Paulo II não foi tão grave porque “o homem é que foi exaltado” e não sua doutrina, e que a iniciativa de Assis III não foi tão escandalosa porque “o fato de que Bento XVI tenha convidado ateus manifesta que não se tratou de uma reunião religiosa”. É zelo amargo estar escandalizado com estas afirmações?

Os fiéis tem todo o direito de saber que na Flórida um prior impediu um pedido de livros contra o Concílio Vaticano II pela encarregada. Denunciado publicamente, devia, com raiva, recuar de sua ordem e encher suas prateleiras com estes livros. O mesmo aconteceu com o catálogo da Angelus Press graças à vigilância dos sacerdotes da Fraternidade de estrita observância. Assim, “Eu acuso o Concílio” e um fascículo sobre a jurisdição de suplência que haviam sido oficialmente descontinuados reapareceram no catálogo.

Os fiéis tem todo o direito de saber que o Superior do Distrito dos Estados Unidos pediu ao Angelus Press para que abandone a publicação em língua inglesa do “Sim, sim, Não, não” e vigiou, durante o congresso anual de Kansas City, que os conferencistas se submetessem às modificações impostas pela nova linha de Mons. Fellay. Pe. Rostand também pediu que se apague todo vestígio de Mons. Williamson no seminário de Winona, que difundia seus sermões, suas conferências e seus artigos. Estranha atitude, já que o mesmo Mons. Fellay disse ter por “Mons. Williamson admiração, por seus golpes geniais na luta contra o Vaticano II”...

Os fiéis tem todo o direito de saber que Pe. Cyprian, que é um sobrevivente de Barroux, passando por Denver tentou provar em um sermão que a situação na Igreja oficial estava se consertando, declaração que, graças a Deus, horrorizou ao sacerdote da Fraternidade que estava presente.

Os fiéis tem todo o direito de saber que o libro do Pe. Troadec sobre “a familia católica” contém numerosas citações “aceitáveis” de Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI. Mas, desgraçadamente, se esqueceram de relatar que Bento XVI, em 15 de dezembro de 2010, recebeu no Vaticano os pervertidos do “Gay circus” que realizaram seu espetáculo. Porque como disse São Pio X: em um modernista, uma página é católica, mas a seguinte é racionalista. A página católica não prova nada entre essa gente, cuja inteligência está corrompida.

Os fiéis tem todo o direito de saber que em Brignoles uma irmã titular rezou em sua classe por “nosso bom papa que renuncia” e se inquietou porque nas famílias se dizia que este papa não era bom, sendo que fora ele que “havia liberado a missa”. Isto confundiu a um de seus alunos, já que antes a madre dizia que este papa “ensinava erros”.

Como é que estas posições tomadas objetivamente contrárias à linha e aos princípios da Fraternidade puderam dispersar-se entre seus membros se não for pelo exemplo que vem de cima?

Os fiéis tem todo o direito de saber que o fato de afirmar, hoje em dia, junto a Mons. Lefebvre que: “Dizer ‘sair da Igreja visível’ é enganar-se assimilando a Igreja oficial e a Igreja visível’, o que implica, para numerosos superiores, o sedevacantismo que para eles representa o pecado dos pecados, enquanto se trata de uma hipótese que, segundo Mons. Lefebvre, poderia ser   ‘um dia confirmada pela Igreja, porque ela tem argumentos muito sérios’”.

Com efeito, os fiéis tem todo o direito de saber que em São Nicolau, diante dos priores da França, em 9 de novembro de 2012, um confrade pediu a  Mons. Fellay o esclarecimento sobre os rumores nos quais se afirmava que no dia 13 de junho havia ido a Roma para fazer acordo. Nosso Superior Geral negou que tal acordo fosse possível – porque essa não era “a maneira de se fazer” – ele havia “enviado o texto para estuda-lo...”, logo explicou que “o acordo havido sido em três tempos...” Mas os padres Lorans, Nély, Pfluger, nessa época e a várias pessoas, confiaram com alegria que no dia 13 de junho Mons. Fellay foi a Roma para fazer acordo. Mons. De Galarreta, ainda que com tristeza e apreensão, em 15 de junho disse a um confrade que esperava o anúncio do acordo pela rádio no dia 13 de junho, pela noite, já que “Ele (Mons. Fellay) havia ido a Roma para fazer o acordo”.

Os fiéis tem todo o direito de saber que os superiores do Distrito da Bélgica e da Suíça, os padres Wailliez e Wuilloud, antes de 13 de junho de 2012, fizeram uma viagem à Espanha expressamente para convencer ao Superior deste Distrito, durante dois dias, sobre a bem fundada política da adesão a Roma de Mons. Fellay. E, ao mesmo tempo, o Secretário Geral chamou por telefone ao Superior da Inglaterra para criticar suas declarações durante uma conversa privada, mas que foram transmitidas a Menzingen [Suíça]. O Pe. Thouvenot não esqueceu, durante esta conversa telefônica, de evocar a este superior a possibilidade de sua exclusão do Capítulo.

Os fiéis tem todo o direito de saber que para o Pe. Pfluger “não é somente o estado da Igreja pós-conciliar que é imperfeito, o nosso também é” (outubro de 2012). E que em novembro de 2012, Mons. Fellay confiou a um confrade que:

1) Queria um reconhecimento canônico;
2) Estava perfeitamente de acordo com Pe. Pfluger

Os fiéis tem todo o direito de saber que Pe. Schmidberger, que trabalhou mais de um mês em Roma, no protocolo de acordo, pensa o mesmo:

As discussões nos revelaram certa debilidade em nossa condição. Nós devemos ter a humildade de admitir. Nós experimentamos igualmente um processo de clarificação no interior. Nós não estamos de acordo com aqueles que rechaçam toda discussão com Roma”.

O Superior do Distrito da Alemanha parece já não estar de acordo com Mons. Lefebvre quando pôs fim às relações com Roma nestes termos:

Se não aceitam a doutrina de seus predecessores, é inútil falar. Enquanto não tenham aceitado reformar o Concílio considerando a doutrina de estes papas que os precederam, não há diálogo possível. É inútil”. (Fideliter, set-out. 1988)

Sem embargo, é verdade que a Fraternidade em sua maioria não busca a adesão a Roma, mas a comissão Ecclesia Dei que recebeu a visita do Pe. Nély no final de dezembro de 2012, bem disse: é necessária “a paciência, a serenidade, a perseverança e a confiança”. A “reconciliação” não é mais que questão “de tempo”. Seria bom que nossos superiores os dissessem que não é uma questão de tempo, mas de princípios. Mas exigir isto hoje em dia é considerado zelo amargo.

Os fiéis tem todo o direito de saber que para impedi-los de julgar, não temem nem o ridículo nem o sofisma. Um prior na França tentou convencer a seus fiéis de que eles não poderiam fazer um juízo como ato de inteligência que constata a verdade de uma coisa (a linguagem dúbia de Mons. Fellay) apoiando-se em um tratado de Santo Tomás falando do juízo, mas como um ato do juiz que dispensa a justiça. Recordou aos fiéis que “Nosso Senhor foi compassivo, paciente, condescendente” com seus apóstolos tão imperfeitos, que Ele os “repreendeu de uma maneira amável, paciente e doce, mas firme ao mesmo tempo”. Mas isto é confundir e despreciar  o “sim, sim, não, não” de Nosso Senhor.

Os fiéis tem todo o direito de saber que quando um prior perguntou se a negociação da ordenação dos dominicanos e capuchinhos estava relacionada com nossas relações romanas, Mons. Fellay o respondeu:

É uma falta de confiança pessoal que experimentei no que diz respeito a estas comunidades... e é uma coisa tão grave ordenar um sacerdote, que preferi esperar...” (9 de novembro de 2012, Paris)

Para medir a grotesca e soberba desumanidade desta resposta, os fiéis tem de saber que os diáconos capuchinhos estavam em retiro com os diáconos da Fraternidade quando foram notificados da negativa de suas ordenações. Eles agora podem comparar esta reação de Mons. Fellay em relação às comunidades amigas e a reação de Mons. Lefebvre submetido à pressão romana:

Vocês sabem que o núncio veio pedir que eu não faça as ordenações, então, claro que lhe respondi: não é a dez dias das ordenações que se pode fazer uma coisa dessas, não é possível. Eu diria, inclusive falando humanamente. Estes jovens sacerdotes trabalharam durante cinco anos para se prepararem para a ordenação, e a dez dias dela, quando seus pais estão prontos para vir, quando as primeiras missas foram anunciadas por todas as partes, é nesse momento que me pedem para não fazer as ordenações. Ordenações que são legítimas. Estes seminaristas, que fizeram seus estudos de maneira regular, tem um direito natural de obterem o resultado da preparação que fizeram”. (Cospec 32A)

Não se joga com as palavras. A situação atual da Igreja pede nosso testemunho valente e inequívoco para a causa católica. As manobras de uma diplomacia duvidosa, contrária tanto ao direito como à simplicidade do Evangelho, não podem senão prejudicar nossa grande causa”. (Franz Schmidberger, 13 de maio de 1985)

A direção ambígua de Mons. Fellay indubitavelmente debilitou a Fraternidade. Está longe o tempo quando a Fraternidade, de maneira reta e caritativa, dizia:

Assim que, quando se examinam as coisas próximas, nos percebemos que existe um grupelho de liberais, de modernistas que conhecem todos entre si e que tomaram o poder. Se lemos o livro do cardeal Ratzinger “Fé cristã ontem e hoje”, descobrimos uma noção da fé completamente acatólica. É, inclusive, simplesmente herética”. (Franz Schmidberger, Superior Geral da Fraternidade Sacerdotal São Pio X. Fideliter N° 69. Mai-jun 1989. Pág. 6-7)

Mas dizer isto hoje em dia será considerado zelo amargo.

Kyrie Eleison.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Oração Abrasada



Oração Abrasada

Precisamos ir à guerra. Sim, este é nosso dever. Como iremos? Com nossos sacerdotes! E como faremos? Dentre outras coisas rezando firmemente por eles. Por isso, propomos a todos os nossos irmãos da resistência católica a se unirem em oração durante todo os meses, em uma forte comunhão de bens espirituais, rezando com São Luis a Oração Abrasada por eles, por suas missões, e para que Deus suscite novos sacerdotes fiéis, que nos dê pelas mãos de sua Mãe Santíssima estes soldados para defenderem a Tradição.

Não deixe de participar!
(Esta união de orações será perpétua)

Você precisa rezar esta oração apenas uma vez ao mês.  
Não deixe de fazê-la!

Inscreva-nos no: http://www.nossasenhoradasalegrias.com.br/p/fotos.html enviando seu nome e nós enviaremos o dia que você ficará responsável.

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Abaixo está a oração nas línguas portuguesa, francesa, 
inglesa e espanhola.









  

ORAÇÃO ABRASADA


ORAÇÃO ABRASADA
São Luis Maria Grignon de Montfot

Lembrai-Vos, Senhor, da Vossa Congregação que desde o princípio Vos pertenceu, e em quem pensastes desde toda a eternidade; que seguráveis na Vossa mão onipotente, quando, com uma palavra, tiráveis do nada o universo; e que escondíeis ainda em Vosso coração, quando Vosso Filho, morrendo na cruz, a consagrou por Sua morte, e a entregou, qual precioso depósito, à solicitude de Sua Mãe Santíssima: Memento esto Congregationis tuae, quam possedisti ab initio. [[1]]
 Atendei aos desígnios de Vossa misericórdia, suscitai homens da Vossa destra, tais quais mostrastes a alguns de Vossos maiores servos, a quem destes luzes proféticas, a um São Francisco de Paula, a um São Vicente Ferrer, a uma Santa Catarina de Siena, e a tantas outras grandes almas no século passado, e até neste, em que vivemos.
Memento: Onipotente Deus, lembrai-vos desta Companhia, ostentando sobre ela a onipotência de Vosso braço, que não diminuiu, para dar-Lhe à luz e produzi-la, e para conduzi-la à perfeição. Innova signa, inmuta mirabilia, sentiamus adiutorium brachii tui. [[2]]
Ó grande Deus, que podeis fazer das pedras brutas outros tantos filhos de Abraão, dizei uma só palavra como Deus, e virão logo bons obreiros para a Vossa seara, bons missionários para a Vossa Igreja.
Memento: Deus de bondade, lembrai-Vos de Vossas antigas misericórdias, e, por essas mesmas misericórdias, lembrai-Vos da Vossa Congregação; lembrai-Vos das promessas reiteradas que nos tendes feito, por Vossos profetas e pelo Vosso próprio Filho, de sempre atender favoravelmente a todos os nossos pedidos justos. Lembrai-Vos das preces que, desde tantos séculos, Vossos servos e servas para este fim Vos tem dirigido; venham à Vossa presença seus votos, seus soluços, suas lágrimas e seu sangue derramado, e poderosamente solicitem Vossa misericórdia. Mas lembrai-Vos, sobretudo, de Vosso amado Filho: respice in faciem Christi tui.[[3]] Contemplem Vossos olhos Sua agonia, Sua confusão, o Seu amoroso queixume no Jardim das Oliveiras, quando disse: Quae utilitas in sanguine meo? [[4]] Sua cruel morte e Seu sangue derramado altamente Vos clamam misericórdia, a fim de que, por meio desta Congregação, seja seu império estabelecido sobre os escombros do de Seus inimigos.
Memento: lembrai-Vos, Senhor, desta Comunidade nos efeitos de Vossa justiça. Tempus faciendi, Domine, dissipaverunt legem tuam [[5]]: é tempo de cumprir o que prometestes. Vossa divina fé é transgredida; Vosso Evangelho desprezado; abandonada, Vossa religião; torrentes de iniqüidade inundam toda a terra, e arrastam até os Vossos servos; a terra toda está desolada: Desolatione desolata est omnis terra; a impiedade está sobre um trono, Vosso santuário é profanado, e a abominação entrou até no lugar santo. E assim deixareis tudo ao abandono, justo Senhor, Deus das vinganças? Tornar-se-á tudo afinal como Sodoma e Gomorra? Calar-Vos-eis sempre? Não cumpre que seja feita a Vossa vontade, assim na terra como no céu, e que a nós venha o Vosso reino? Não mostrastes antecipadamente a alguns de Vossos amigos uma futura renovação de Vossa Igreja? Não se devem os judeus converter à verdade? Não é esta a expectativa da Igreja? Não Vos clamam todos os santos do céu: “Justiça! Vindica? [[6]]?” Não Vos dizem todos os justos da terra: Amen, veni Domine? Não gemem todas as criaturas, até as mais insensíveis, sob o peso dos inumeráveis pecados de Babilônia, pedindo a Vossa vinda para restabelecer todas as coisas? Omnis creatura ingemiscit[[7]]
Senhor Jesus, memento Congregationis tuae. Lembrai-Vos de dar à Vossa Mãe uma nova Companhia, a fim de por Ela renovar todas as coisas, e a fim de terminar por Maria Santíssima os anos de graça, assim como por Ela os começastes.
Da Matri tuae liberos, alioquin moriar [[8]]: dai filhos e servos à Vossa Mãe: quando não, fazei que eu morra. Da Matri tuae. É por Vossa Mãe que Vos imploro. Lembrai-Vos de Suas entranhas e de Seu seio, e não rejeiteis minhas súplicas; lembrai-Vos de quem sois Filho, e atendei-me; lembrai-Vos do que Ela é para Vós e do que sois para Ela, e satisfazei a meus votos. Que Vos peço eu? Nada em meu favor, tudo para Vossa glória. Que Vos peço eu? O que podeis, e até ouso dizer, o que deveis conceder-me, como verdadeiro Deus que sois, a quem todo poder foi dado no céu e na terra, e como o melhor dos filhos, que amais infinitamente Vossa Mãe.
Que Vos peço eu? Liberos: Sacerdotes, livres de Vossa liberdade, desprendidos de tudo, sem pai, sem mãe, sem irmãos, sem irmãs, sem parentes segundo a carne, sem amigos segundo o mundo, sem bens, sem embaraços, sem cuidados, e até sem vontade própria.
Liberos: Escravos de Vosso amor e de Vossa vontade; homens segundo Vosso coração, que, sem vontade própria que os macule e os faça parar, executem todas as Vossas vontades e derrubem todos os Vossos inimigos, quais novos Davids, com o cajado da cruz e a funda do santíssimo Rosário, nas mãos: in baculo Cruce et in virga Virgine. [[9]]
Liberos: almas elevadas da terra e cheias de celeste orvalho, que, sem obstáculos, voem de todos os lados, movidos pelo sopro do Espírito Santo. Em parte, foi delas que tiveram conhecimento Vossos profetas, quando perguntaram: qui sunt isti qui ut nubes volant? [[10]] – Ubi erat impetus spiritus, illuc gradiebantur. [[11]]
Liberos: Almas sempre à Vossa mão, sempre prontas a obedecer-Vos, à voz de Seus superiores, como Samuel: Praesto sum [[12]], sempre prontas a correr e a sofrer tudo por Vós e conVosco, como os apóstolos: Eamus et nos, ut muriamur cum eo[[13]]
Liberos: Verdadeiros filhos de Maria, Vossa Mãe Santíssima, engendrados e concebidos por Sua caridade, trazidos em Seu seio, presos a Seu peito, nutridos de Seu leite, educados por Sua solicitude, sustentados por Seus braços, e enriquecidos de Suas graças.
Liberos: Verdadeiros servos da Santíssima Virgem, que, como outros tantos São Domingos, vão por toda parte, com o facho lúcido e ardente do santo Evangelho na boca, e na mão o santo Rosário, a ladrar, como cães fiéis, contra os lobos que só buscam estraçalhar o rebanho de Jesus Cristo; que vão, ardendo como fogos, e iluminando como sóis as trevas deste mundo; e que, por meio de uma verdadeira devoção a Maria Santíssima, isto é, uma devoção interior, sem hipocrisia; exterior, sem crítica; prudente, sem ignorância; terna, sem indiferença; constante, sem versatilidade, e santa, sem presunção, esmaguem, por todos os lugares em que estiverem, a cabeça da antiga serpente, a fim de que a maldição que sobre ela lançastes seja inteiramente cumprida: Inimicitias ponam inter te et mulierem, et semen tuum et semen illius; ipsa conteret caput tuum. [[14]]
É verdade, grande Deus, que o demônio há de armar, como predissestes, grandes ciladas ao calcanhar dessa mulher misteriosa, isto é, à pequena Companhia de Seus filhos que hão de surgir perto do fim do mundo; é verdade que há de haver grandes inimizades entre essa bendita posteridade de Maria Santíssima e a raça maldita de satanás; mas é essa uma inimizade toda divina, a única de que sejais autor: Inimicitias ponam. Porém esses combates e essas perseguições dos filhos da raça de Belial contra a raça de vossa Mãe Santíssima só servirão para melhor fazer resplandecer o poder de Vossa graça, a coragem da virtude dos Vossos servos, e a autoridade de Vossa Mãe, pois que Lhe destes, desde o começo do mundo, a missão de esmagar esse soberbo, pela humildade de Seu coração: Ipsa conteret caput tuum.
Alioquin moriar. Não é melhor para mim morrer do que Vos ver, meu Deus, todos os dias, tão cruel e impunemente ofendido, e a mim mesmo ver todos os dias em risco de ser arrastado pelas correntes de iniqüidade que aumentam a cada instante, sem que nada se lhes oponha? Ah! mil mortes me seriam mais toleráveis. Enviai-me o socorro do céu, ou senão chamai a minha alma. Sim, se eu não tivesse a esperança de que, mais cedo ou mais tarde, haveis de ouvir este pobre pecador, nos interesses de Vossa glória, como já ouvistes a tantos outros: Iste pauper clamavit et Dominus exaudivit eum [[15]]pedir-Vos-ia do mesmo modo que o profeta: Tolle animam meam. [[16]]
A confiança que tenho em Vossa misericórdia faz- me, porém, dizer com outro profeta: non moriar, sed vivam, et narrabo opera Domini [[17]]; até que com o velho Simeão possa dizer:Nunc dimittis servum tuum, Domine, in pace, quia viderunt oculi mei etc. [[18]]
Memento: Divino Espírito Santo, lembrai-Vos de produzir e formar filhos de Deus, com Maria, Vossa divina e fiel Esposa. Formastes Jesus Cristo, cabeça dos predestinados, com Ela e n’Ela, e com Ela e n’Ela deveis formar todos os Seus membros; nenhuma pessoa divina engendrais na Divindade; mas só Vós, unicamente Vós, formais todas as pessoas divinas, fora da Divindade, e todos os santos que tem existido e hão de existir até ao fim do mundo, são outros tantos produtos de Vosso amor unido a Maria Santíssima. O reino especial de Deus Pai durou até ao dilúvio, e foi terminado por um dilúvio de água; o reino de Jesus Cristo foi terminado por um dilúvio de sangue; mas Vosso reino, Espírito do Pai e do Filho, está continuando presentemente e há de ser terminado por um dilúvio de fogo, de amor e de justiça.
Quando virá esse dilúvio de fogo do puro amor, que deveis atear em toda a terra de um modo tão suave e tão veemente que todas as nações, os turcos, os idólatras, e os próprios judeus hão de arder nele e converter-se? Non est qui se abscondat a calore eius. [[19]]
Accendatur: seja ateado esse divino fogo que Jesus Cristo veio trazer à terra, antes que ateeis o fogo de Vossa cólera, que há de reduzir tudo a cinzas. Emitte Spiritum tuum et creabuntur, et renovabis faciem terraeEnviai à terra esse Espírito todo de fogo, para nela criar sacerdotes todos de fogo, por cujo ministério seja a face da terra renovada, e reformada por Vossa Igreja.
Memento Congregationis tuae: É uma congregação, uma assembléia, uma seleção, uma escolha de predestinados de deveis fazer no mundo e do mundo: Ego elegi vos de mundo.[[20]] É um rebanho de pacíficos cordeiros que deveis ajuntar entre tantos lobos; uma companhia de castas pombas e de águias reais entre tantos corvos; um enxame de laboriosas abelhas entre tantos zangãos; uma manada de céleres veados entre tantos cágados; um batalhão de leões destemidos entre tantas lebres tímidas. Ah! Senhor: Congrega nos de nationibus [[21]]; congregai-nos, uni-nos, para que de tudo se renda toda a glória a Vosso nome santo e poderoso.
Predissestes esta ilustre Companhia a Vosso profeta, que dela fala em termos muito obscuros e misteriosos, mas divinos: “Pluviam voluntariam segregabis, Deus, hereditati tuae, et infirmata est, tu vero perfecisti eam. Animalia tua habitabunt in ea. Parasti in dulcedine tua pauperi, Deus. Dominus dabit verbum evangelizantibus virtute multa. Rex virtutum, dilecti dilecti, et speciei domus dividere spolia. Si dormiatis inter medios cleros, pennae columbae deargentatae, et posteriora dorsi eius in pallore auri. Dum discernit caelestis reges super eam, nive dealbuntur in Selmon. Mons Dei, mons pinguis; mons coagulatus, mons pinguis; ut quid suspicamini montes coagulatos? Mons in quo beneplacitum est Deo habitare in eo, etenim Dominus habitabit in finem” (Sl 67, 10-17). [[22]]
Qual é, Senhor, essa chuva voluntária que separastes e escolhestes para Vossa enfraquecida herança, senão esses santos missionários, filhos de Maria, Vossa Esposa, aos quais deveis congregar e separar do comum, para o bem de Vossa Igreja, tão enfraquecida e maculada pelos crimes de seus filhos?
Quem são esses animais e esses pobres que hão de habitar em Vossa herança, e ser aí nutridos com a divina doçura que lhes haveis preparado, senão esses pobres missionários abandonados à Providência e transbordantes de Vossas delícias divinas; esses misteriosos animais de Ezequiel, que hão de ter a humanidade do homem, por sua desinteressada e benfazeja caridade para com o próximo; a coragem do leão, por sua santa cólera e por seu ardente e prudente zelo contra os demônios e filhos de Babilônia; a força do boi, por seus trabalhos apostólicos e pela mortificação contra a carne; e finalmente a agilidade da águia, por sua contemplação em Deus?
Tais são os missionários que quereis enviar à Vossa Igreja. Terão olhos de homem para o próximo, olhos de leão contra Vossos inimigos, olhos de boi contra si próprios e olhos de águia para Vós. Esses imitadores dos apóstolos pregarão, virtute multa, virtute magna, com grande força e virtude, e tão grande, tão esplêndida, que hão de comover todos os espíritos e todos os corações nos lugares em que pregarem. A eles é que haveis de dar Vossa palavra: Dabis verbum; e até mesmo Vossa boca e Vossa sabedoria: Dabo vobis os et sapientiam, cui non poterunt resistere omnes adversarii vestri, à qual nenhum dos Vossos inimigos poderá resistir. [[23]]
Entre esses prediletos Vossos, ó amabilíssimo Jesus, é que tomareis Vossas complacências na qualidade de Rei das virtudes, pois que em todas as suas missões não hão de ter por objeto senão dar-Vos toda a glória das vitórias que alcançarem sobre Vossos inimigos: Rex virtutum dilecti dilecti, et speciei domus dividere spolia[[24]]
Por seu abandono à Providência, e pela devoção a Maria Santíssima, terão as asas prateadas da pomba: inter medios cleros, pennae columbae deargentatae:[[25]] isto é, a pureza da doutrina e dos costumes; e douradas as costas: et posteriora dorsi eius in pallore auri,[[26]] isto é, uma perfeita caridade para com o próximo, para suportar-lhe os defeitos, e um grande amor a Jesus Cristo, para levar a sua cruz.
Só Vós, ó Jesus, como Rei dos céus e Rei dos reis, haveis de separar do mundo esses missionários, como outros tantos reis, para torná-los mais brancos que a neve sobre a montanha de Selmon, montanha de Deus, montanha abundante e fértil, montanha forte e coagulada, montanha em que Deus se compraz maravilhosamente, e na qual habita e há de habitar até o fim.
Quem é, Senhor Deus de verdade, essa montanha misteriosa de que nos dizeis tantas maravilhas, senão Maria, Vossa diletíssima Esposa, cuja base pusestes sobre o cimo das mais altas montanhas? Fundamenta eius in montibus sanctis. [[27]Mons in vértice montium.[[28]]
Felizes e mil vezes felizes os sacerdotes que tão bem elegestes e predestinastes para conVosco habitar nesta abundante e divina montanha, para aí se tornarem reis da eternidade, pelo desprezo da terra e pela elevação em Deus; para aí se tornarem mais brancos que a neve pela união a Maria, Vossa Esposa toda formosa, toda pura e toda imaculada; para aí se enriquecerem do orvalho do céu e da fecundidade da terra, de todas as bênçãos temporais e eternas de que está toda cheia Maria Santíssima.
É do alto dessa montanha que hão de lançar, quais novos Moisés, por suas ardentes súplicas, dardos contra seus inimigos, para prostrá-los ou para convertê-los; é sobre essa montanha que hão de aprender da própria boca de Jesus Cristo, que aí está sempre, a inteligência das Suas oito bem-aventuranças; é sobre essa montanha de Deus que com Ele hão de ser transfigurados, como no Tabor, que hão de morrer com Ele, como no Calvário, e que hão de subir com Ele ao céu, como na montanha das Oliveiras.
Memento Congregationis tuaeSó a Vós compete formar, por Vossa graça, essa assembléia; se o homem nela meter mãos à obra antes de Vós, nada se fará; se quiser misturar algo que é dele com o que é Vosso, estragará tudo, destruirá tudo. Tuae Congregationis: é trabalho Vosso, grande Deus. Opus tuum fac: fazei uma obra toda divina; ajuntai, chamai, convocai de todas as partes de Vossos domínios os Vossos eleitos, para deles fazer um exército contra Vossos inimigos.
Vede, Senhor Deus dos exércitos, os capitães que formam companhias completas, os potentados que ajuntam numerosos exércitos, os navegadores que reúnem frotas inteiras, os mercadores que se congregam em grande número nos mercados e nas feiras! Quantos bandidos, ímpios, ébrios e libertinos se unem em massa contra Vós todos os dias, e isto com tanta facilidade e prontidão! Basta soltar um assobio, rufar um tambor, mostrar a ponta embotada de uma espada, prometer um ramo seco de louros, oferecer um pedaço de terra amarela ou branca; basta, em poucas palavras, uma fumaça de honra, um interesse de nada, um mesquinho prazer animal que se tem em vista, para, num instante reunir os bandidos, ajuntar os soldados, congregar os batalhões, convocar os mercadores, encher as casas e os mercados, e cobrir a terra e o mar com uma multidão inumerável de réprobos, que, embora divididos todos entre si, ou pelo afastamento dos lugares, ou pela diversidade dos gênios, ou por seus próprios interesses, se unem, entretanto, e se ligam até à morte, para fazer-vos guerra sob o estandarte e sob o comando do demônio.
E Vós, grande Deus! embora haja tanta glória e tanto lucro, tanta doçura e vantagem em servir-Vos, quase ninguém tomará Vosso partido? Quase nenhum soldado se alistará em Vossas fileiras? Quase nenhum São Miguel clamará no meio de seus irmãos, cheio de zelo pela Vossa glória: Quis ut Deus? [[29]]
Ah! permiti que brade por toda parte: fogo, fogo, fogo! socorro, socorro, socorro! Fogo na casa de Deus! fogo nas almas, fogo até no santuário! Socorro, que assassinam nosso irmão! socorro, que degolam nossos filhos! socorro que apunhalam nosso bom Pai! Si quis est Domini, iungatur mihi: [[30]] venham todos os bons sacerdotes que estão espalhados pelo mundo cristão, os que estão atualmente na peleja, e os que se retiraram do combate para se embrenharem pelos desertos e ermos, venham todos esses bons sacerdotes e se unam a nós. Vis unita fit fortior [[31]], para que formemos, sob o estandarte da Cruz, um exército em boa ordem de batalha e bem disciplinado, para de concerto atacar os inimigos de Deus que já tocaram a rebate: “Sonuerunt, frenduerunt, fremuerunt, multiplicati sunt”[[32]] “Dirumpamus vincula eorum et proiiciamus a nobis iugum ipsorum. Qui habitat in caelis irridebit eos”. [[33]] “Exsurgat Deus et dissipentur inimici eius!” [[34]] “Exsurge, Domine, quare obdormis? Exsurge”. [[35]]
Erguei-Vos, Senhor: por que pareceis dormir? Erguei-Vos em todo o Vosso poder, em toda a Vossa misericórdia e justiça, para formar-Vos uma companhia seleta de guardas que velem a Vossa casa, defendam Vossa glória e salvem tantas almas que custam todo o Vosso sangue, para que só haja um aprisco e um pastor, e que todos Vos rendam glória em Vosso santo templo:Et in templo eius omnes dicent gloriam. [[36]]
Amém.
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“Prece de S. Luís Maria Grignion de Montfort pedindo a Deus missionários para a sua Companhia de Maria”, São Luís Maria Grignion de Montfort. Editora Vozes Limitada. Petrópolis, RJ. 1971, pp. 301-313.
As notas de rodapé foram introduzidas conforme a Bíblia Sagrada, traduzida da Vulgata e anotada pelo Pe. Matos Soares. Edições Paulinas, 23ª. edição, 1967.


[1] Lembra-te da tua família, que fundaste desde a antigüidade ... (Sl 73, 2)
[2] Renova os teus prodígios, e faze novas maravilhas (Eclo 36, 6). E com o seu santo braço os defenderá (Cfr. Sab 5, 17).
[3] Põe os olhos no rosto do ungido. (Sl 83, 10)
[4] Que vantagem virá do meu sangue ...? (Sl 29, 10)
[5] É tempo, Senhor, de procederes (com rigor); violaram a tua lei. (Sl 118, 126)
[6] Cfr. Ap 6, 10. Até quando, Senhor, santo e verdadeiro, dilatas tu o fazer justiça, e vingar o nosso sangue dos que habitam sobre a terra?
[7] Todas as criaturas gemem. (Rom 8, 22)
[8] Cfr. Gn 30, 1. Dá-me filhos, senão morrerei.
[9] Cfr. 1 Re 17, 40: E tomou o seu cajado ...;  e Sl 22, 4: A tua vara e o teu báculo, são estes que me consolam.
[10] Quem são estes, que voam como nuvens? (Is 60, 8)
[11] Iam para onde o Espírito os impelia. (Ez 1, 12)
[12] Eis-me aqui. (1 Re 3, 16)
[13] Vamos nós também para morrermos com Ele. (Jo 11, 16)
[14] Porei inimizades entre ti e a mulher, e entre a tua posteridade e a posteridade dela. Ela te pisará a cabeça. (Gn 3, 15)
[15] Eis que o aflito clamou, e o Senhor o ouviu. (Sl 33, 7)
[16] Tirai-me a vida. (Cfr. 3 Re 19, 4)
[17] Não morrerei, mas viverei e narrarei as obras do Senhor. (Sl 117, 17)
[18] Agora, Senhor, deixas partir o teu servo em paz, segundo a tua palavra; porque os meus olhos viram a tua salvação .... (Lc 2, 29-30)
[19] Não há quem se esconda de seu calor. (Cfr. Sl 18, 7)
[20] Eu vos escolhi do meio do mundo. (Jo 15, 19)
[21] Recolhe-nos dentre as nações. (Sl 105, 47)
[22] [10] Ó Deus, tu enviaste uma chuva abundante sobre a tua herança; e, estando ela extenuada, a reanimaste. [11] Nela habitou a tua grei; na tua bondade, ó Deus, preparaste-a para o pobre. [12] O Senhor pronuncia uma palavra (de grande eficácia), é grande a multidão dos mensageiros de novas alegres: [13] Os reis dos exércitos fogem, e as (mulheres) que estão em casa repartem os despojos. [14] Quando descansáveis nos apriscos, as asas da pomba brilhavam como prata, e como um amarelo de ouro as suas penas. [15] Enquanto o Onipotente dispersava os reis da terra, caíam as neves sobre o Salmon. [16] Os montes de Basan são elevados, os montes de Basan são escarpados: [17] Ó montes escarpados, por que olhais com inveja o monte, no qual aprouve a Deus morar, e no qual o Senhor habitará perpetuamente? (Sl 67, 10-17)
[23] Porque eu vos darei uma boca e uma sabedoria, à qual não poderão resistir, nem contradizer, todos os vossos inimigos. (Cfr. Lc 21, 15)
[24] Os reis dos exércitos fogem, e as (mulheres) que estão em casa repartem os despojos.
[25] Quando descansáveis nos apriscos, as asas da pomba brilhavam como prata...
[26] E como um amarelo de ouro brilhavam as suas penas.
[27] Os seus fundamentos estão sobre os montes santos. (Sl 86, 1)
[28] O monte da casa do Senhor terá os seus fundamentos no cume dos montes. (Is 2, 2)
[29] A frase “Quem como Deus?” é uma tradução literal do nome Miguel.
[30] Quem é pelo Senhor, junte-se a mim! (Cfr. Ex 32, 26)
[31] Uma força unida torna-se mais forte.
[32] Bramiram, rangeram os dentes, agitaram-se, multiplicaram-se. (Cfr. Sl 2, 1; 24, 19; 45, 4; 34, 6; 37, 20)
[33] Quebremos as suas cadeias, e sacudamos de nós os seus laços! Aquele que habita nos céus ri-se, o Senhor zomba deles. (Sl 2, 3-4)
[34] Levante-se Deus, e sejam dispersados os seus inimigos. (Sl 67, 1)
[35] Erguei-vos, Senhor, por que dormis? Erguei-vos. (Sl 43, 24)
[36] E no seu templo todos dizem: Glória! (Sl 28, 9)