sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Aos Estudantes
Aos estudantes dos cursos secundários de Roma, 24 de março de 1957.
1) Estudai a verdade
Vossas inteligências juvenis desabrocham para a vida, ansiosas por conhecer, e a natureza está aberta diante de vós com suas maravilhas e seus mistérios; os problemas da existência, os atos humanos, vossas aspirações, a fim de ser alcançado, os caminhos a percorrer, os meios a serem usados: tudo é uma interrogação; tudo exige clareza luminosa e precisão na resposta. Estudai, portanto. Aplicai-vos, custe o esforço que custar, e não descuideis de coisa alguma proposta pelos programas ou pelos mestres.
Ser indolente e preguiçoso significaria atraiçoar-vos a vós mesmos e renunciar ao desenvolvimento completo e harmonioso de vossa pessoa. Frustraríeis ainda as esperanças de vossos pais, que, para manter-vos nos estudos, fizeram, quem sabe, pesados sacrifícios e arrostaram renúncias; privaríeis a pátria e o mundo do número necessário de homens capazes, homens de ciência, cultores das artes, técnicos da política, da economia, do direito.

2) Estudai seriamente
a) Para este fim, antes de tudo, evitai avaliar a importância do estudo pelo critério da utilidade imediata. O que a vida vos reserva, não o sabeis ainda; nem sabeis bem para onde se dirigirá efetivamente vossa carreira.
É bem sabido ser prescrita aos futuros capitães de mar a aos oficiais das naves de guerra a manobra de navios a vela. Ninguém imaginaria, à primeira vista, que isso pudesse ser necessário à solução dos complicados problemas técnicos concernentes à rota de um transatlântico e o tiro de um couraçado. Perguntai, porém, aos peritos porque, então, os futuros navegantes devem aprender a manobra das velas e nela aperfeiçoar-se, e responderão que assim mais facilmente os marinheiros adquirem aquele sexto sentido chamado "senso marítimo".
A aplicação ao vosso caso parece-Nos natural e fácil. Cada vez que pegardes num livro, principiardes uma aula, prestardes um exame, não deveis perguntar-vos: Para que me serve isto? Nunca digais: Eu serei engenheiro; para que me serve a Filosofia? Eu serei advogado; para que me serve a Física? Eu serei médico; para que me serve o estudo da Arte? A verdade é que algumas noções e conhecimentos, certos hábitos cognoscitivos e uma certa ordem mental, o senso da medida e da harmonia intelectual; em suma, a maior vastidão e profundidade das bases ajudam sempre na vida e muitas vezes auxiliam de modo imprevisto e inesperado: isto vale geralmente para duas matérias, o Latim e a História.
b) Para estudar seriamente é preciso não pensar ser o número dos conhecimentos o elemento fundamental para construir o edifício de vossa cultura. Não temos necessidade de muitas coisas, mas todo o necessário e conveniente, bem apreendido, compreendido com justeza, intensamente aprofundado. Deve-se, pois, evitar obrigar-vos a um esforço quase sobre-humano e a percorrer afanosamente tudo o que o saber acumulou sobre as cátedras e tenta levar até aos bancos dos alunos. Isto é ainda mais verdade se se trata de estudos excessivos puramente mnemônicos - bem diversos do estudo sério e jubiloso da verdadeira e profunda formação cultural - e pelos quais a escola se arrisca a transformar-se em um drama que entristece os pais e irrita os alunos.
c) Contudo há ainda um terceiro defeito, contra o qual é preciso que os alunos se acautelem com o auxílio dos mestres conscienciosos e a ajuda daqueles que se encarregam de preparar os programas.
Quem conhece os problemas da escola sabe que nada é tão nocivo quanto um acervo de noções acumuladas confusa e desordenadamente, que não se harmonizam nem se integram, mas, ao contrário, várias vezes se chocam ou mesmo se anulam reciprocamente. Acontece não raro que o ensino e o estudo das matérias científicas se desenvolvem, abstraindo inteiramente a consideração da necessidade de uma completa formação da inteligência. Esta deve alcançar uma capacidade sempre maior de síntese e a profundeza da pesquisa por meio de sério estudo filosófico. Ciência e Filosofia, portanto, devem integrar-se mutuamente, encontrando-se ali onde o estudo trata das mais íntimas e profundas estruturas da matéria e onde deve originar-se ou descobrir-se a mais ampla e elevada harmonia.
Acontece, além disso, que o ensino e o estudo da Religião sejam descuidados por alguns alunos ou considerados com suspeita e desconfiança por certos professores de outras matérias, que talvez não poupem zombarias e insinuações. E como outrora se recorria às certezas e às luzes da Ciência para ridicularizar as dúvidas e as sombras da Filosofia, agora se compara a "racionabilidade" de certas noções filosóficas com o "caráter insustentável" dos mistérios. Todos podem imaginar o caos decorrente de semelhante método de ensino e de estudo. Sabem-no em demasia vossas mentes jovens, frágeis e mal preparadas.
Resultados bem diferentes seriam obtidos se o ensino de todas as matérias fosse perfeitamente ordenado e orgânico. De fato, o "corpus doctrinae" obedece, de modo semelhante, às leis de qualquer corpo vivo. Ele cresce pelo efeito do desenvolvimento interior de seus membros, que, por sua vez, encontram no todo o alimento para a própria vida. O empobrecimento interior de alguns membros ou seu crescimento desordenado provocam no resto do "corpus" perda de vitalidade, debilidade, e, como consequência, ineficácia de ação. Outro tanto sucede com os ramos do saber humano. Um crescimento desordenado não seria de vantagem para o conjunto cultural, assim como também seria prejudicial a falta de distinção entre o fundamental ou principal e o acessório.
Conseguir-se-á a desejada unidade orgânica da cultura quando até o "corpus doctrinae" tiver como cabeça Cristo. "Eu sou... a Verdade", exclamou Ele um dia (Jó 14, 6). Quando estudardes a natureza, lembrai-vos de que "tudo foi feito por Ele, e sem Ele nada se fez do que existe" (Jó 1, 3).
Quando aprenderdes História, não vos esqueçais de que não é simples relação de fatos mais ou menos sanguinolentos ou edificantes, porque nela, facilmente visível, há uma arquitetura que merece ser estudada e aprofundada à luz da universal providência divina e da inegável liberdade de ação humana. Em particular notai com que olhos bem diferentes consideraríeis os acontecimentos dos dois milênios, se partindo daqueles que foram os primeiros albores da Igreja, demorando-vos nas grandes e insuperadas sínteses antigas e medievais, refletindo sobre dolorosas apostasias, mas sobretudo sobre as grandes conquistas modernas, e prestando atenção, cheios de confiança, nos muitos sinais de renascimento e de ressurgimento.

3) Mas para que esta cultura orgânica seja possível, é necessário que vosso estudo seja completo
a) Primeiro na ordem do imediato apresenta-se a vós o mundo natural que impressiona vossos sentidos e move vossa curiosidade. É necessário que a natureza com suas belezas e seu fascínio atraia ainda poderosamente a juventude da geração moderna. Estendei vosso olhar até às secretas profundezas das nebulosas e a enorme quantidade das estrelas dispersas no universo imenso; parai a contemplar as maravilhas do vosso planeta, palácio real do homem; penetrai até às estruturas mais profundas do átomo e de seu núcleo. Para ler este livro estupendo, tomai por intérprete a ciência, apaixonando-vos por seus problemas, suas soluções, suas hipóteses, seus mistérios próprios. Enquanto os pequenos presunçosos ficam satisfeitos com as poucas noções aprendidas, percebereis que irá sempre aumentando a desproporção entre o que sabeis e o que desejais conhecer. Se vossos mestres souberem dirigir-vos nesta leitura, neste estudo, ficareis pasmados com a facilidade com que se descobre em cada criatura o Criador, que por este conhecimento é glorificado e retribuir-vos-á enchendo vosso coração de felicidade.
b) Das ciências experimentais passai para a verdade da Filosofia, fundamento de todo saber. Bem sabemos que muitas vezes, vezes demais, este estudo tão nobre e necessário se reduz a um relatório opressivo de erros provenientes de espíritos perturbados e de corações desordenados. Tal estudo é certamente nocivo aos alunos, como prova a queixa cada vez mais forte e aflita da parte de pais justamente preocupados com a doutrina dos filhos. Por que se deve chamar "mestre" a quem semeia névoas de ceticismo nas mentes indefesas dos jovens? Nós não o sabemos compreender. A liberdade do intelecto consiste na possibilidade de penetrar sempre mais profundamente esta ou aquela verdade, de considerar um aspecto em lugar de outro, de formar sínteses e deduções de maior ou menos amplidão. É, portanto, uma liberdade totalmente positiva e tanto maio quanto mais iluminada e protegida contra o erro.
Será necessário, também, é claro, conhecer a história do pensamento filosófico, mas a insistência deverá ser maior sobre o estudo da realidade em todos os seus elementos e em todos os seus aspectos. Cada um deverá ser capaz de responder com precisão e clareza às perguntas que inevitavelmente vos fareis a vós mesmos ou que outros possam fazer-vos: que é, geralmente falando, a realidade? que é, em particular, o mundo? Que valor tem o conhecimento humano? Existe Deus? Qual a Sua natureza, e quais os Seus atributos? Que relações existem entre Ele e os homens? Qual é o sentido da vida? e da morte? Qual a natureza da alegria e a função do prazer? Que critérios devem reger as sociedades humanas, a familiar e a civil?
Para adequada resposta a tais perguntas, necessário se faz recorrer à Filosofia Perene, que, no curso dos séculos, extraordinários espíritos elaboraram e nada perdeu de seu valor objetivo e de sua eficácia didática; tanto mais quanto os desenvolvimentos dos conhecimentos científicos não se acham em oposição às teses certas desta filosofia.
c) Da Filosofia passai para a Ciência cujos conhecimentos derivam das doutrinas da Fé, dadas por divina revelação. Todos os cristãos, porém mais especialmente os que se dedicam ao estudo, deveriam possuir, tanto quanto possível, uma instrução religiosa profunda e orgânica. Seria, com efeito, perigoso desenvolver todos os outros conhecimentos e deixar o patrimônio religioso sem nada mudar, como nos tempos da mais tenra infância. Necessariamente incompleto e superficial, este se veria sufocado ou talvez destruído pela cultura arreligiosa e pelas experiências da vida adulta, como o atesta tanto a fé naufragada pelas dúvidas conservadas na sombra, por problemas que ficaram sem solução. Assim como é preciso que seja racional o fundamento da vossa fé, assim se torna indispensável um estudo suficiente da Apologética; e depois devereis saborear as belezas do Dogma e as harmonias da Moral; por fim, bem podereis lançar vosso olhar para além dos caminhos da Ascese cristã, mais alto, mais alto, até às alturas da Mística. Oh! se o cristianismo aparecesse diante de vós em toda a sua grandeza e em todo o seu esplendor!
Fazei com que a verdade, conhecida e possuída, se torne norma de vida e de ação. Por ela, libertai-vos das paixões e preconceitos. Por ela, crescei no Cristo.Veritatem... facientes in caritate, crescamus in illo por omnia qui est caput, Christus (Ef 4, 15).
Corre pelo mundo uma voz de renascimento, um grito de despertar: será o despertar cristão. Vós quereis uma construção nova sobre as ruínas acumuladas por aqueles que preferem o erro à verdade. O mundo deverá ser re-construído em Jesus.
Quem se opõe a imaginar insubsistentes decadências e a prever impossíveis ocasos para a Igreja, olhe para trás, para a história; reflita sobre o presente e preveja - porque não é impossível - o futuro. Lembre-se do que aconteceu a quem tentou destruir a Esposa de Cristo, veja o que está acontecendo a quem se obstina no insensato intento. Quem se levanta contra a Igreja quebrar-se-á sobre a pedra na qual Cristo, seu divino Fundador, quis edificá-la.
Jovens! quereis cooperar no gigantesco empreendimento da reconstrução? A vitória será de Cristo. Quereis combater com Ele? Sofrer com Ele? Não sejais então juventude mole e fraca. Sede, ao contrário, juventude inflamada, juventude ardente. Acendei e propagai o fogo que Jesus veio trazer ao mundo!

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