sexta-feira, 23 de setembro de 2011

O sistema das leis naturais
Discurso na inauguração do VII Ano Pontifício da Academia das Ciências, 22 de fevereiro, 1943.

O MUNDO DE HOJE
O SISTEMA DAS LEIS NATURAIS
 Eis, só para citar, no macrocosmo dos fenômenos puramente físico‑químicos, as numerosas e particulares leis da mecânica dos corpos sólidos, líquidos e gasosos; as leis da acústica e do calor, da eletricidade, do magnetismo e da luz; as leis do andamento, da reação e do equilíbrio químico na química inorgânica e orgânica; leis particulares que muitas vezes se elevam como normas mais alevantadas e gerais, de modo a fazer compreender e reconhecer, em grande número, grupos de fenômenos naturais, que antes pareciam desprovidos de qualquer interna relação, como conseqüência de lei superior. Eis as leis do movimento dos planetas a chegarem até a lei universal da gravitação. As célebres equações de Maxwell não lançaram porventura uma ponte entre os fenômenos da óptica e da eletricidade, e todos os fenômenos naturais do mundo inorgânico, não estão submetidos à lei da constância e da entropia?
 Se até há não muito tempo conheciam‑se duas leis constantesa da conservação da massa e a da conservação da energia, as mais recentes pesquisas provaram com fatos e argumentos sempre mais convincentes que toda massa é equivalente a uma determinada quantidade de energia e vice‑versa. Portanto as duas antigas leis de conservação são em rigor aplicações especiais de uma lei superior mais geral, que diz: em um sistema fechado, não obstante todas as mudanças, sempre onde se encontra uma notável transformação de massa em energia ou vice‑versa, a soma de ambas permanece constante. Esta lei superior de constância é uma das chaves, das quais hoje se serve o físico do átomo para penetrar nos mistérios do núcleo atômico.
 Tal sistema científico, ricamente conexo e organizado, do macrocosmo, contém, fora de toda dúvida, muitas leis de estática, as quais porém, considerada a multidão dos elementos: átomos, moléculas, elétrons, fótons, etc., não são, por segurança e exatidão, notavelmente inferiores às leis estritamente dinâmicas. Em todo o caso estão fundadas e quase ancoradas nas leis rigidamente dinâmicas do microcosmo, se bem que as leis micro-cósmicas nos sejam, em seus particulares, ainda quase totalmente desconhecidas, embora as novas e ousadas pesquisas tenham feito esforços poderosos para penetrar na atividade misteriosa do átomo, em seu interior. De pouco em pouco, ao caírem estes véus, desaparecerá então o caráter aparentemente não causal dos fenômenos micro-cósmicos: um novo maravilhoso reino de ordem, e de ordem até nas partículas mínimas, será descoberto.
 É realmente surpreendente como se nos apresentam estes íntimos processos de investigação do átomo, não somente porque abrem diante de nosso olhar o conhecimento e um mundo antes desconhecido, cuja riqueza, multiplicidade e regularidade pareciam de algum modo competir com as sublimes grandezas do firmamento, mas também para os efeitos imprevisíveis, grandiosos, que a técnica pode esperar. A tal respeito não podemos abster-nos de mencionar um admirável fenômeno, do qual o Nestor da Física teórica, Max Planck, nosso acadêmico, escreveu em um seu recente artigo "Sinn und Grenzen der exakten Wissenschaft". A singular transformação do átomo, por longos anos ocupou somente os que perscrutavam a ciência pura. Por sem dúvida era surpreendente a grandeza da energia que por vezes aí se desenvolvia; mas, como os átomos são extremamente pequenos, não se pensava seriamente que pudessem jamais adquirir uma importância também na ordem prática. Hoje, pelo contrário, tal questão tomou um aspecto inesperado, depois dos resultados da radioatividade artificial. Estabeleceu‑se de fato que na desagregação que um átomo de urânio sofre, se for bombar­deado por um nêutron, tornam‑se livres dois ou três nêutrons, cada um dos quais se lança sozinho e pode encontrar e fraturar outro átomo de urânio. De modo que se multiplicam os efeitos, e pode acontecer que o choque con­tinuamente em crescimento dos nêutrons sobre átomos de urânio, faça au­mentar em breve tempo o número de nêutrons tornados livres, e propor­cionalmente a soma de energia que deles se desenvolve, até a uma medida enorme e apenas imaginável. De um cálculo especial resultou que de tal modo em um metro cúbico de pó de óxido de urânio, em menos de um centésimo de segundo desenvolve‑se uma energia suficiente para elevar a 27 mil me­tros um peso de um milhão de toneladas: uma soma de energia que poderia substituir, por muitos anos, a ação de todas as grandes centrais elétricas de todo o mundo. Planck termina observando que, se bem que não se possa ainda pensar em colocar tecnicamente em proveito dos povos um tão tem­pestuoso processo, todavia, está aberto o caminho para importantes possi­bilidades, de maneira que o pensamento da construção de uma máquina de urânio não pode ser estimado como mera utopia. Sobretudo seria impor­tante que não se deixasse efetuar tal processo em modo de explosão, mas que se freasse o curso com adaptados e especiais meios químicos. De outro modo poderia disto surgir não só no próprio lugar de experiência, mas tam­bém para todo o nosso planeta, uma perigosa catástrofe.
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Se agora, dos intermináveis campos do inorgânico nos elevamos até a esfera da vida vegetativa e sensitiva, aí encontramos um novo mundo de leis na propriedade, na multidão, na variedade, na beleza, na ordem, na qualidade e na utilidade da natureza, que enchem o orbe terráqueo. Ao lado de muitas leis do mundo inorgânico, encontramos também leis especialmente superiores, leis próprias da vida, que não podem ser reduzidas às puramente físico‑químicas, porque não se podem considerar seres viventes como se fos­sem apenas uma soma de elementos físico‑químicos. É novo e maravilhoso horizonte que a natureza nos apresenta: e basta que, como exemplo, recor­demos: as leis do desenvolvimento dos organismos, as leis das sensações externas e internas, e sobre todas as coisas a fundamental lei psicofísica. Também a vida superior espiritual é regulada pela lei da natureza, pelo menos assim qualificada, que o defini‑Ia com precisão torna‑se tanto mais difícil quanto mais elevadas estão na ordem do ser.
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 Este admirável e ordenado sistema de leis qualitativas e quantitativas, particulares e gerais, do macrocosmo e do microcosmo, hoje está diante dos olhos do cientista em seu entrelaçado, já em grande parte desvendado e des­coberto. E por que dizemos descobertos? Porque não é nem projetado, nem construído por nós, na natureza, estipêndio de uma pretensão, inata forma subjetiva da consciência ou do intelecto humano, ou artefato em vantagem e uso da economia do pensamento e do estudo, para tomar por nós conhe­cidas as coisas mais recônditas; nem mesmo é o fruto ou a conclusão de entendimentos ou convenções de sábios investigadores da natureza. As leis naturais existem por assim dizer, encarnadas e ocultamente operantes no íntimo da natureza, e nós com observação e experiências procuramos descobri-las.
 Não se pode dizer que a matéria não é uma realidade, mas uma abstração forjada pela Física, que a natureza em si é incognoscível, que o nosso mun­do sensível é outro mundo "a se", onde o fenômeno, que é aparência do mundo exterior, nos faz sonhar a realidade das coisas ocultas. Não: a natu­reza em si é realidade, e realidade cognoscível. Se as coisas aparecem e são mudas, têm porém uma linguagem que fala a nós, que sai do seu seio, como a água de uma fonte perene. A sua linguagem é a sua causalidade que chega aos nossos sentidos com a visão das cores e do movimento, com o som dos metais, das turbinas e dos animais, com a doçura e a amargura do mel e do fel, com o perfume das flores, com a duração, o peso e o calor de suas matérias, imprimindo em nós uma imagem ou semelhança, que é meio para o nosso intelecto para reconduzir‑nos à realidade das coisas. Onde não se fala de imagem ou semelhança do nosso intelecto, mas trata‑se das próprias coisas em si; e sabe‑se distinguir o fenômeno do mundo sensível, da substância das coisas, a aparência do ouro, do próprio ouro, como a apa­rência do pão, do próprio pão, de cuja substância faz‑se o alimento para assimilá‑lo e apropriá‑lo à substância do corpo. 0 movimento das coisas causa em nós uma semelhança; sem semelhança não pode existir confor­midade do nosso intelecto com as coisas reais, e sem semelhança torna‑se impossível o conhecimento; e nós não podemos dizer verdadeira coisa al­guma, se não há uma adequação do intelecto a ela, e dela ao nosso inte­lecto. As coisas (das quais nossa inteligência haure a ciência) medem a nossa mente e as leis que nelas encontramos e que delas recebemos; são por sua vez medidas por aquele Intelecto Eterno e Divino, no qual estão todas as coisas criadas, como na mente do artífice está toda obra de sua arte. Que faz a mão e o engenho do cientista? Descobre‑as, desvenda‑as, distingue e classifica, não como alguém que segue apenas um vôo de pássaros no céu, mas como quem está de posse dos mesmos, e procura a natureza e as propriedades intrínsecas deles. Quando Lothar Meyer e Mendelejew em 1869 ordenaram os elementos químicos naquele simples esquema, hoje indicado como o sistema natural dos elementos, estavam profundamente convenci­dos de ter encontrado uma ordem regular, fundada sobre suas proprieda­des e tendências internas, uma classificação sugerida pela natureza, cujo progressivo desenvolvimento prometia as mais extraordinárias descobertas sobre a constituição e o próprio ser da matéria. De fato, daquele ponto tomou movimento a investigação atômica moderna. No tempo da descoberta, a assim chamada economia mental não era tomada em consideração, pois que o primitivo esquema mostrava ainda muitas lacunas; nem se podia tra­tar de convenção, pois que a qualidade da matéria impunha tal ordem. Este é só um exemplo, entre muitos, donde os mais geniais cientistas do passado e do presente procederam, com a nobre persuasão de serem arautos de uma verdade, idêntica e a mesma para todos os povos e estirpes que calcam o solo do globo e olham para o céu; uma verdade, apoiando‑se em sua essên­cia sobre uma "Adaequatio rei et intellectus", que outra coisa não é senão a conformidade adquirida, mais ou menos perfeita, mais ou menos completa, do nosso intelecto à realidade objetiva das coisas naturais, em que consiste a verdade do nosso saber.
 Mas não se deslumbre, como aqueles filósofos e cientistas que estimaram que as nossas faculdades cognoscitivas não conhecem senão as próprias mudanças e sensações já que disseram que o nosso intelecto chegaria a ter a ciência só das semelhanças recebidas das coisas, e por isto só as imagens das coisas, e não as coisas mesmas, seriam o objeto de nossa ciência e das leis que formulamos a respeito da natureza. Manifesto erro. A ciência, que exalta um Copérnico e um Galileu, um Kepler e um Newton, um Volta e um Marconi, e outros famosos e beneméritos investigadores do mundo físico que nos circunda, mundo externo, seria um belo sonho da mente acordada; um belo fantasma do saber físico; a aparência substituiria a realidade e a verdade das coisas; e outro tanto verdadeiro seria afirmar‑se ou negar‑se uma mesma coisa, sob o mesmo aspecto. Não; a ciência não é dos sonhos, nem das semelhanças das coisas; mas das próprias coisas através das imagens que delas recolhemos, porque, como depois de Aristóteles, ensinou o Angélico Doutor, a pedra não pode estar em nossa alma, mas somente a imagem ou a figura da pedra, que, semelhante a ela, se produz em nossos sentidos e depois em nosso intelecto, a fim de que por tal semelhança possa estar e de fato esteja em nossa alma, em nosso estudo e nos faça retornar a ela, reconduzindo‑nos à realidade. Também as recentes pesquisas da Psicologia experimental atestam, ou melhor, confirmam, que esta semelhança não é mero produto de uma atividade subjetiva autônoma, mas são reações psíquicas a estímulos independentes do sujeito, provenientes das coisas; reações conforme as diversas qualidades e propriedades das coisas; e que variam, variando o estímulo.
 As imagens, portanto, que as coisas naturais, ou por meio da luz e do calor, ou por via do som, do sabor, e do odor, imprimem em nossos órgãos dos sentidos e através dos sentidos internos chegam ao nosso intelecto, não são senão instrumento que nos fornece a natureza, nossa primeira mestra do saber, para fazer‑se conhecer por nós; mas não é menos verdadeiro que nós podemos examinar, estudar, indagar de tal instrumento e refletir sobre estas imagens e sobre quanto elas nos apresentam da natureza e sobre a via pela qual se tornam nossa fonte de conhecimento no mundo que nos cerca. Do ato pelo qual nosso intelecto entende a pedra, nós passamos ao ato de entender como o nosso intelecto entende a pedra: ato que secunda o primeiro, porque o homem, nascendo sem idéias inatas, sem sonhos de uma vida anterior, entra virgem de imagens e de ciência no mundo nascido feito ‑ como já recordamos ‑ para "aprender somente sentindo aquilo que depois faz do intelecto digno".
 Admirai, ó investigadores da natureza e das leis que a governam, no centro do universo material, a grandeza do homem, em cujo primeiro encontro com a luz, por ele saudada com gemido infantil, Deus abriu o teatro da terra e do firmamento, com todas as maravilhas que o encantam e atraem seus olhos inocentes! Este teatro, que é senão o fundamental e primeiro objeto de todo conhecimento humano, que dali se inicia com mil e mil interrogações que a natureza mestra volve e revolve na avidez de nossos sentidos? Vós vos maravilhais em vós mesmos; escrutai vossos atos interiores, inclinai‑vos sobre vós mesmos, procurando as fontes, e as encontrais naqueles sentidos internos, naquelas potências e faculdades, feitas objeto de uma nova ciência de vós mesmos, da vossa íntima natureza racional, do vosso sentido, de vosso intelecto e de vossa vontade. Eis a ciência do homem e de suas leis corpóreas e psíquicas, eis a Anatomia, a Fisiologia, a Medicina, a Psicologia, a Ética, a Política e aquela soma de ciências que, mesmo no meio de seus erros, é um hino a Deus, que, plasmando o homem, lhe inspirou um espírito de vida superior ao dos outros seres viventes, feito à imagem e semelhança sua. O macrocosmo extrínseco material diz assim de si uma grande palavra ao microcosmo intrínseco espiritual: um e outro, em sua força operosa, são soberanamente regulados pelo Autor das leis da matéria e do espírito, do qual, como do supremo governo de Deus no mundo, para não entreter longamente a vossa atenção, Nos reservamos de discorrer, se assim agradar ao Senhor, em outra ocasião; mas as mudanças do espírito, que escuta a voz e as maravilhas do universo, por vezes são terríveis, e lhe dão vertigens, por vezes o exaltam e o fazem dar passos, até no caminho da ciência mais gigantesca dos movimentos regulares dos planetas e das cons­telações dos céus, até a sublimá‑lo, do mundo físico material do seu estudo, ao mundo espiritual além do criado para louvar "o Amor que move o sol e as demais estrelas".
 Este amor, que criou, move e governa o universo, governa e rege tam­bém a História e o progresso da humanidade inteira, e tudo dirige para um fim, oculto ao nosso pensamento na caligem dos anos, mas fixado pelo eterno para aquela glória que dele narram os céus e que Ele espera do amor dos homens, aos quais concedeu encher a terra e sujeitá‑la com o seu trabalho. Possa este amor comover e voltar o desejo e a boa vontade dos poderosos e de todos os homens a se irmanarem, para operarem na paz e na justiça, para se inflamarem no fogo da imensa e benéfica caridade de Deus, e cessem de inundar de sangue e semear de ruínas e prantos esta terra onde todos, sob qualquer céu, fomos colocados para militar como filhos de Deus, para uma vida eternamente feliz!

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